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Revista · junho de 2020 · Fundación para la Confianza

Revista Por un Mundo sin Abuso (“Por um Mundo sem Abuso”) · Junho de 2020: Violência no lar e na infância

Número de junho de 2020: a confiança lúcida como segunda lei da prevenção, o programa Hablemos de Todo, a violência contra crianças e adolescentes, o terrorismo da intimidade, o grooming durante a quarentena e como identificar violências no lar.

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Retrato de José Andrés Murillo, filósofo e diretor da Fundación para la Confianza.
José Andrés Murillo · Filósofo, diretor da Fundación para la Confianza

A prevenção do abuso sexual infantil é uma decisão pessoal, familiar e institucional. No último número da Revista falamos da necessidade de transformar a organização num contexto protetor, um contexto saudável, de cuidado e reconhecimento mútuos. Não é possível proteger crianças e adolescentes de qualquer forma de abuso (em particular do abuso sexual) se, entre os adultos que compõem o contexto, não se constitui um ambiente protetor, saudável, de bom trato. E isso não ocorre de maneira automática, mas é decisão e ação permanentes: construir, fortalecer e defender um contexto de bom trato, de pensamento crítico, de respeito irrestrito pelos direitos humanos é o primeiro passo para prevenir o abuso sexual infantil.

É importante insistir nisso porque há um erro muito comum nas organizações e nos supostos especialistas em abuso sexual cujo enfoque está posto em responsabilizar as crianças e na prevenção do abuso. Seriam as crianças e os adolescentes que deveriam ser capazes de perceber quando há perigo e quando devem dizer não; deveriam ser capazes de distinguir segredos bons dos ruins, o mesmo com as carícias, distinguir as boas das ruins. E, se há carícias ou segredos ruins, deveriam aprender a dizer não, gritar, correr, bater, denunciar. Se não o fazem, é porque não aprenderam a prevenir o abuso. Pois bem, isso é um erro enorme, que só aumenta a sensação de culpa em quem foi vítima, culpa que é própria do trauma por abuso. Essa culpa e essa vergonha –por não ter dito não– pesarão como silenciamento sobre a possível vítima. Ou como desconfiança de si mesma e dos demais.

A nossa proposta como Fundación para la Confianza é que justamente a confiança deve ser elemento-chave para prevenir o abuso sexual infantil. A confiança lúcida. Crianças e adolescentes têm direito a um ambiente de confiança em que saibam a quem recorrer em caso de problemas, de medo, de confusão. E nós, como adultos e adultas, temos o dever de garantir esse contexto de confiança lúcida. Se uma criança não sabe em quem confiar, então se culpará a si mesma, viverá na desconfiança em relação a si, enfraquecendo a sua integridade, identidade, proteção e até a sua capacidade de aprender.

A segunda lei da prevenção do abuso sexual infantil consiste em fortalecer as relações de confiança lúcida nas famílias e nas instituições, onde crianças e adolescentes saibam a quem podem recorrer em caso de necessidade, dúvidas ou perigo.

José Andrés Murillo, filósofo, diretor da Fundación para la Confianza. Continua na próxima edição.

Abuso na família

Paula Vergara · Psicóloga, coordenadora técnica da área de atendimento da Fundación para la Confianza

Todos os dias, uma pessoa chega com uma nova história à nossa Fundación. Pode-se observar como chegaram, com esforço, para pedir ajuda, depois de pensar nisso várias vezes. E ali posso encontrá-las, esperando com medo, angústia, ansiedade e com a expectativa de receber uma resposta.

Sei que a sua história estará inundada de dor, de algumas lembranças e de uma grande tristeza. Ao começar com um “Conte-me, em que podemos apoiar?”, surge com frequência um choro contido e profundo: “Quando eu tinha uns 6 anos, já não lembro bem, sofri abuso sexual do meu pai….” “Nunca contei isso, aos 8 anos, a minha avó abusava de mim….” “O meu irmão mais velho abusou de mim durante 10 anos, eu não entendia o que estava acontecendo….” “A minha tia materna me tocava cada vez que me levavam à casa dela….” “O meu primo me obrigava a tocá-lo, eu tinha 11 anos”. Homens, mulheres, idosos, jovens, de tantos lugares, de diversas origens educacionais, com recursos distintos e de incontáveis ofícios e profissões.

Mas que compartilham uma história traumática, segredos, acontecimentos que não têm nome, não têm lugar na mente e que lhes causam um tremendo impacto emocional. Esconderam isso por anos e eu tenho o privilégio de escutá-los. Um privilégio, porque conseguem voltar a confiar em alguém, em outra pessoa, apesar de a sua capacidade de confiar ter sido danificada, e tentam de novo no encontro comigo.

Contam-me como essas experiências os e as afetaram na vida, nas suas relações, nos seus afetos, nas suas decisões, nas ideias que têm de si mesmos e, às vezes, na vontade de morrer. Rodeados de lembranças fragmentadas, ou de imagens impossíveis de esquecer, frases indeléveis, da impossibilidade de escapar, de compreender, e da desilusão de muitos, ao falar e abrir o segredo com outras pessoas e se deparar com a força do desmentido.

As pessoas, naturalmente, necessitamos e buscamos os afetos, o vínculo com os outros; isso nos faz humanos. As crianças buscam esse vínculo a partir da ternura, do amor naqueles que estão perto, entre aqueles que amamos e em quem confiamos. Assim, grande parte das pessoas que sofreram abuso sexual são vítimas de alguém do seu meio próximo, um pai, mãe, tio, prima, irmão, alguém que conta com o afeto e a confiança, não só de quem sofre o abuso, mas também da família.

Na salinha onde as recebo, escuto os seus relatos com todo o respeito que posso oferecer, permitindo que possamos descobrir que não era responsabilidade delas, que estiveram inseridas numa dinâmica abusiva centrada no poder de outro, que abusou do afeto genuíno, que não é justo viver dessa maneira, que merecem o bem-estar psicológico que buscam, que é um direito delas.

O seu alívio ao ouvir que acredito nelas permite que o meu trabalho tenha sentido, e o seu agradecimento e o abraço final me comovem; agradeço também por ser testemunha do começo da sua recuperação.

Paula Vergara, psicóloga, coordenadora técnica da área de atendimento da FPLC

Hablemos de Todo

Notícias da Fundación para la Confianza

Autocuidado e tomada de decisões informadas para a prevenção das condutas de risco entre as juventudes.

As condutas de risco são entendidas como ações voluntárias ou involuntárias, realizadas por um indivíduo ou comunidade, que podem ter consequências nocivas; as suas causas são múltiplas e podem dever-se a fatores biopsicossociais. A evidência mostra que são particularmente intensas na adolescência (Minsal, 2019; Kranzler, Briley, Diamond, Watson, 1999). (Minsal: Ministério da Saúde do Chile.)

O Chile enfrenta problemas que se expressam no aumento de condutas de risco na população jovem. Isso se reflete em diversos âmbitos do desenvolvimento juvenil: em termos de saúde sexual e reprodutiva, o aumento das condutas de risco foi significativo, em particular no que se refere ao uso de preservativos nas relações sexuais, que diminuiu 9 pontos, de 49% em 2012 para 40% em 2015 (ENJ INJUV, 2015).

Os dados alertam para o aumento dos riscos de contágio de HIV e ISTs, assim como para as maiores possibilidades de a população jovem enfrentar uma gravidez na adolescência. Quanto ao consumo de álcool e drogas, os dados revelam que 12,2% dos jovens de 15 a 19 anos têm um consumo de risco de álcool, cifra que aumenta para 18% entre os jovens de 20 a 29 anos (Pesquisa Nacional de Saúde, 2016-2017).

Situação semelhante se observa no consumo de maconha, que aumentou quase 10% entre 2014 e 2016 em jovens de 19 a 25 anos (SENDA, 2016). Outro dado significativo é o aumento de 50% nos acidentes de trânsito protagonizados por jovens de 15 a 29 anos, segundo o último estudo publicado pela Comissão Nacional de Segurança de Trânsito (Conaset, 2017).

Com relação à violência, ela se apresenta em diferentes âmbitos, como a discriminação e a violência no namoro (“pololeo”). Quanto à discriminação, 36% das e dos jovens já se sentiram discriminados alguma vez na vida (ENJ INJUV, 2015).

Além disso, de acordo com a mesma pesquisa, 7% declaram ter sido vítimas de algum tipo de violência de casal, sendo a violência psicológica (13%) e a violência física (6%) as de maiores relatos. Nessa linha, o estudo “Amores tempranos. Violencia en los pololeos en adolescentes y jóvenes” (“Amores precoces. Violência no namoro entre adolescentes e jovens”) indica que 53% dos jovens já foram testemunhas de violência no namoro (Fundación Instituto de la Mujer, 2019).

  • 36%das e dos jovens já se sentiram discriminados alguma vez na vida
  • 7%declaram ter sido vítimas de algum tipo de violência de casal
  • 53%dos jovens já foram testemunhas de violência no namoro
Violência e discriminação entre jovens. Fontes citadas pela revista: ENJ INJUV 2015 (as duas primeiras) e Fundación Instituto de la Mujer 2019 (a terceira).

Em razão do exposto, o Injuv (Instituto Nacional da Juventude do Chile), com o apoio da Todo Mejora e da Fundación para la Confianza, desenvolve o programa Hablemos de Todo (“Falemos de Tudo”), em que, por meio do site Hablemos de Todo, se oferece informação livre de estigmas sobre os temas mais relevantes para as juventudes.

A Todo Mejora é uma organização da sociedade civil dedicada a promover o bem-estar de crianças e adolescentes que sofrem bullying e comportamento suicida, devido à discriminação baseada em orientação sexual, identidade e expressão de gênero e, a partir da sua experiência, contribui para a criação de conteúdos do site, atualizando constantemente os dados e os temas com base nos interesses das juventudes.

Por sua vez, a Fundación para la Confianza se encarrega do desenvolvimento e do atendimento do chat, onde profissionais de saúde mental atendem todas as pessoas de 15 a 29 anos que consultem sobre temas do seu interesse, tais como gênero, sexualidade, drogas, bem-estar, emprego, saúde reprodutiva, entre outros.

Hablemos de Todo é o resultado da união do Estado e da sociedade em prol do bem-estar das juventudes, com base na educação e no atendimento imediato.

“Tem sido vital a ajuda e o apoio que a Fundación Para la Confianza deu neste caso, de querer se unir ao projeto, de fazer parte deste desafio; um desafio que sem dúvida é muito importante para todo o país, já que o acesso dos jovens à saúde mental é muito difícil, muitas vezes é muito caro; por isso, todos os temas com ideações suicidas, bullying, cyberbullying, violência no namoro, estresse, ansiedade nesta época de pandemia, angústia também, às vezes não têm com quem conversar, e na verdade o lançamento desta plataforma, com especialistas no tema, que saibam como abordá-los, acredito que abre uma porta e uma grande oportunidade para que os jovens chilenos, de uma ou outra forma, se sintam respaldados, se sintam escutados, sintam que têm um espaço onde possam falar do que sentem, sem nenhum preconceito e com um grande par de ouvidos que podem acolher e que podem ajudá-los nos momentos em que mais precisarem.” María Asunción Cekalovic, diretora nacional interina do Instituto Nacional da Juventude (INJUV)

A violência contra crianças e adolescentes: uma prática arraigada

Notícias da Fundación para la Confianza

Camila tinha um ano e meio quando o pai morreu num acidente. As lembranças são vagas, mas ela conta a sua história assim: “Quando isso aconteceu, a minha mãe deixou de cuidar de nós e começou a beber muito e a se drogar. O meu irmão se encarregou de mim e roubava galinhas para que tivéssemos algo para comer”.

A sopa de galinha e o frio ela não esquece, embora já tenham se passado quase duas décadas e a sua vida de agora nada tenha a ver com o que viveu nos primeiros anos. A negligência e os maus-tratos eram a única maneira de viver que Camila conhecia, até que alguém interveio: um vizinho ou vizinha denunciou a mãe às autoridades: “Acho que foi porque viram que a minha mãe nos deixava dormindo ao relento à noite, com todo o frio”, diz.

Os Carabineros (polícia ostensiva chilena) foram até a casa onde viviam com a mãe e levaram-na, com o irmão, para uma residência do Sename (então serviço estatal chileno de proteção à infância). Como Camila, ano após ano são milhares as crianças e os adolescentes que ingressam na rede do Sename por serem vítimas de violência. Segundo o UNICEF, sete de cada dez crianças no Chile já sofreram violência física ou psicológica por parte dos pais, das mães ou de parentes, porque ela é considerada uma ferramenta “educadora”.

Sete de cada dez crianças chilenas já sofreram violência física ou psicológica por parte dos pais ou de parentes.

Por outro lado, o Chile tem uma grande dívida com a infância, por ser o único país da América Latina que não conta com uma Lei de Garantias e Proteção Integral dos direitos da infância e da adolescência, marco legal que, além de assegurar vidas mais dignas, colocaria o foco não apenas na reparação das violações, mas na prevenção dessas situações.

O Sename informa no seu último Anuário Estatístico que, em 2018, de um total de 128.674 crianças e adolescentes que ingressaram na linha de atendimento ambulatorial, 79.778 foram por maus-tratos ou negligência. Do mesmo modo, na área de Cuidado Alternativo —onde ingressam menos de 10% das crianças da rede— as causas de ingresso são as mesmas.

Camila ingressou há 20 anos numa residência do Sename e saiu da rede depois de completar a maioridade. Apesar das tentativas, a reaproximação com a mãe não teve o resultado esperado. Mudaram as coisas nessas duas décadas?

O fato é que, embora tenha diminuído o número de residências da rede e tenham sido priorizados outros tipos de linhas de ação, como os programas ambulatoriais e as famílias de acolhimento, a cada ano são mais as crianças e os adolescentes encaminhados pelos tribunais de família com alguma medida de proteção. Esse aumento se deve a que atualmente o Sename conta com maior quantidade de vagas e de programas para atender vítimas de violência; no entanto, ainda não é suficiente, já que em dezembro de 2018 a lista de espera chegava a quase 13.000.

  • 7 de cada 10crianças no Chile já sofreram violência física ou psicológica por parte de pais ou parentes (UNICEF)
  • 79.778de 128.674 ingressos na linha ambulatorial do Sename em 2018 foram por maus-tratos ou negligência
  • 13.000quase: a lista de espera do Sename em dezembro de 2018
Números do artigo: UNICEF e Anuário Estatístico do Sename.

A pandemia e a violência

Com a pandemia, projeta-se que a situação piore: a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o confinamento em nível mundial aumenta a exposição de crianças e adolescentes a fatos de violência e abuso sexual, bem como à venda, ao tráfico e à exploração sexual. Ao mesmo tempo, os tribunais de justiça reduziram os encaminhamentos ou, pior ainda, como estes são direcionados a programas específicos e praticamente “às cegas” por parte de juízes e juízas, que não contam com informação suficiente e atualizada, não há certeza real de como o Estado responderá à crescente demanda por atendimentos.

Terrorismo da intimidade

O terrorismo é uma ameaça à estabilidade mais básica de um país. São atos de violência que põem em risco as estruturas fundamentais de segurança que permitem a um país funcionar de forma saudável. Há uma semelhança com o que ocorre com uma pessoa que é vítima de violência no lar. A violência intrafamiliar ou doméstica, que inclui o abuso psicológico, sexual, físico ou econômico, é um golpe na própria estrutura de uma pessoa, porque ocorre justamente ali onde deveria viver-se a segurança e o cuidado mais estáveis: o lar, a relação íntima. Por isso alguns a chamam justamente de terrorismo da intimidade1.

As pesquisas sobre as profundas consequências traumáticas que isso acarreta para as vítimas fazem com que possamos falar diretamente de terrorismo da intimidade. A prevalência global estimada pela OMS é de 30%, sendo, assim, a forma de violência mais disseminada em nível mundial2.

O terrorismo da intimidade é um golpe no coração da estabilidade existencial de um ser humano. É a instauração de uma espécie de ditadura privada3 que priva a vítima —a parceira ou parceiro, os filhos e filhas— da sua individualidade, danifica a sua subjetividade, destrói a sua autoestima, a sua identidade e até a sua dignidade.

O clima afetivo em que se movem as vítimas oscila entre o medo, a vergonha e a culpa. As consequências traumáticas podem ser irreversíveis, embora muitas vezes elas carreguem essa situação em silêncio. Ataques de pânico, estresse pós-traumático, ideação suicida, autolesões, abuso de substâncias tóxicas e depressão foram estabelecidos por centenas de pesquisas. Sabemos que o terrorismo da intimidade não é algo novo. É atávico e parecia uma determinação da natureza, uma condenação a que milhões de mulheres, pelo simples fato de serem mulheres, estavam condenadas a sofrer. Nas últimas décadas, a sociedade começou a problematizar essa aparente determinação, a questioná-la e a buscar os meios necessários para combatê-la.

A pandemia, a quarentena, o confinamento constituem o pior contexto para o terrorismo da intimidade. A violência aumenta tanto quanto diminuem as oportunidades de pedir ajuda, de evitar o terror graças ao trabalho, à escola, à rua, às distrações.

Romper com a tradição da violência e do terrorismo da intimidade exige olhar de frente essa violência, reconhecê-la para tirar-lhe o caráter de natural, de normal. Não, a violência não é normal, o abuso psicológico, sexual, físico não é normal, nem a submissão no lar. O lar, a família, seja como for que esteja constituída, deve ser um refúgio, um espaço de cuidado, respeito, reconhecimento. Um lugar onde todos e todas voltamos a recuperar forças, não a ser eliminados e eliminadas. Seguiremos lutando como Fundación para la Confianza até consegui-lo.

  1. William G. Herron and Rafael Art. Javier, “A Look at Domestic Violence through the Trauma Lens” em Understanding Domestic Violence. Theories, Challenges, and Remedies (Editado por Rafael Art. Javier e William G. Herron). Rowman & Littlefield, EUA, 2018.
  2. World Health Organization [WHO] (2013). Responding to Intimate Partner Violence and Sexual Violence against Women: WHO Clinical and Policy Guidelines. Geneva: World Health Organization.
  3. Gina Troisi, “Measuring Intimate Partner Violence and Traumatic Affect: Development of VITA, an Italian Scale” em Frontiers in psychology, 2018.

Aumenta o risco de assédio virtual contra crianças em quarentena

Durante este período de confinamento aumentaram consideravelmente os casos de aliciamento (grooming) registrados em nível mundial. Isso se deve a que crianças e adolescentes passam mais horas nas redes sociais e em jogos on-line e, portanto, estão mais expostos a esse tipo de violação. Isso levou diversos especialistas a fazer um chamado para fortalecer os mecanismos de prevenção.

Diante da pandemia de Covid-19 e da quarentena como única solução, aumentaram todo tipo de interações digitais. Teletrabalho, compras pela internet, videochamadas, entre outras, foram a forma que as pessoas encontraram para que o distanciamento social não se transformasse em isolamento. No entanto, segundo afirmou o subprefeito e chefe da Brigada do Cibercrime da PDI (Polícia de Investigações do Chile), Luis Orellana, ao jornal La Tercera: “Quanto mais pessoas conectadas e mais transações na web, mais arriscada é a nossa navegação”.

Por essa razão, o Escritório Europeu de Polícia (Europol) alertou sobre um número recorde de ataques cibernéticos, que incluem o grooming. Nesse sentido, o subchefe da Brigada do Cibercrime, Cristián González, afirma que não houve um aumento importante nas denúncias, mas que isso não significa que não esteja acontecendo, porque crianças e adolescentes aumentaram de maneira considerável o uso de plataformas como o TikTok e de jogos virtuais.

Nesse sentido, Orellana, em outra entrevista sobre o tema na CNN Chile, apresenta as seguintes recomendações: não permitir que as crianças vão dormir com o telefone; evitar que fiquem sozinhas em algum lugar da casa com um aparelho tecnológico; dar o exemplo e não passar o dia inteiro conectados e conectadas; não ter perfis abertos; e criar laços de confiança com as crianças, para o caso de serem vítimas de abuso. Sobre este último ponto, a psicóloga da Línea Libre (linha de atendimento da Fundação para crianças e jovens, suspensa) aconselha que “fortaleçamos a confiança com crianças e adolescentes e os acompanhemos, pois, se criamos espaços de escuta e reflexão, é mais provável que possam se aproximar novamente de nós para receber proteção ou para manter um espaço seguro em que façam as suas consultas. De modo que não tenham medo nem culpa ao nos contar, e consigamos nos posicionar como uma rede de acolhimento, apoio e ação diante dessa prática tão violadora como é o grooming.”

Muitas coisas acontecem no nosso lar: como identificar se são violências?

Conselhos · Línea Libre

  • Violência psicológicaConsiste em qualquer ação que sentimos que nos degrada como pessoas, ou que procura controlar as nossas ações ou decisões. Pode se manifestar, por exemplo, em humilhação, restrição, manipulação ou isolamento, qualquer ação que cause dano emocional e que prejudique o desenvolvimento pessoal.
  • Violência de gêneroÉ aquela que recolhe estereótipos, mensagens, valores ou signos que transmitem e favorecem que se repitam relações baseadas na desigualdade, no machismo, na discriminação ou na naturalização de qualquer papel de subordinação das mulheres nos nossos espaços. Haver tarefas da casa atribuídas somente às mulheres é, definitivamente, violência.
  • Violência físicaQualquer ação que provoque dano ou sofrimento físico e afete a integridade da pessoa: hematomas, feridas, queimaduras e até um empurrão é violência física, e jamais devemos deixá-las passar com desculpas.
  • Violência econômicaNo âmbito familiar, corresponde a toda ação que afete ou impeça atender de forma adequada às necessidades econômicas da família (ou de alguma das pessoas que vivem no lar). Correspondem também a todos os atos que danificam, perdem, subtraem, destroem ou se apropriam de objetos ou bens para gerar controle sobre outra pessoa.
  • Violência sexualToda ação que ameaça ou viola o direito de decidir sobre a própria sexualidade e abrange qualquer forma de contato sexual. A violência sexual não se limita a forçar alguém contra a sua vontade, mas inclui qualquer tipo de assédio, abuso ou intimidação, não importa se ocorre dentro de uma relação, no lar ou de forma virtual.
  • CyberbullyingNo cyberbullying é frequente que se use a internet e as redes sociais para publicar informação sobre uma pessoa ou grupo de pessoas com a intenção de ridicularizar ou humilhar. Expor aspectos íntimos e privados de outras pessoas na rede também é violência.
Seis cartões da Línea Libre publicados na revista, com o lema #EstamosContigo.

Sobre esta edição. Versão web da revista Por un Mundo sin Abuso de junho de 2020, publicada em PDF pela Fundación para la Confianza, com as erratas corrigidas e gráficos novos que resumem o conteúdo. Os números e as referências correspondem à data da revista. A Línea Libre mencionada neste número está hoje suspensa. Baixar o PDF original (em espanhol)

Equipe editorial. José Andrés Murillo, diretor. Verónica Uzcátegui, editora-chefe. Nicole del Río, Paula Vergara e Sofía Aliaga, colaboradoras. Cristhian Sotomayor, design e diagramação. Endereço indicado na revista: José Ramón Gutiérrez 269, Santiago. E-mail: contacto@paralaconfianza.com. Telefone: 56 9 62272718.

Tradução da Fundación Para la Confianza. Em caso de divergência, prevalece a versão em espanhol. Versão em espanhol.