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Artigo científico · Murillo, Mendiburo-Seguel, Santelices, Araya, Narváez, Piraino, Martínez e Hamilton · Psicoperspectivas · 2021

Abuso sexual precoce e seu impacto no bem-estar atual do adulto

Estudo com 641 pessoas adultas da Região Metropolitana de Santiago: quantas declaram ter sido vítimas de abuso sexual antes dos 18 anos e como o tipo de abuso, o nível socioeconômico e o impacto percebido se relacionam com o seu bem-estar atual.

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Resumo

O objetivo deste estudo foi explicar o possível efeito do abuso sexual infantil (antes dos 18 anos) sobre o bem-estar atual das pessoas que o sofreram, a partir da análise de uma pesquisa aplicada em 2018 pela Fundación para la Confianza na Região Metropolitana de Santiago, no Chile. A amostra foi composta por 641 participantes, aos quais se aplicou um questionário de autorrelato. As respostas foram agrupadas em três tipos de abuso sexual: estupro (violación), abuso com contato físico e abuso sem contato físico genital, que foram relacionados com variáveis sociodemográficas, com o impacto percebido e com o bem-estar subjetivo. Os resultados mostraram uma clara relação do nível socioeconômico, do tipo de abuso vivido e da avaliação do impacto do evento com o bem-estar subjetivo. Discute-se a necessidade de desenvolver definições de abuso mais abrangentes.

Palavras-chave: abuso sexual infantil, bem-estar subjetivo, fatores de risco, fatores de proteção

Abstract

Childhood sexual abuse and its impact on adult well-being. The main aim of this study was to explain the possible effect of childhood sexual abuse (before the age of 18) on the current well-being of those who have suffered it, based on the analysis of a survey conducted in 2018 by the Fundación para la Confianza in the Metropolitan Region in Chile. The sample consisted of 641 participants who were administered a self-report questionnaire. The responses were grouped into three types of sexual abuse: rape, abuse with physical contact, and abuse without physical contact, they were related to sociodemographic variables, perceived impact, and subjective well-being. The results showed a clear relationship between the socioeconomic level, the type of abuse and the evaluation of the impact of the event on subjective well-being. The need to develop more comprehensive definitions of abuse is discussed.

Keywords: childhood sexual abuse, subjective well-being, protective factors, risk factors

Introdução

O que é o abuso sexual infantil?

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 1999) assinala que “o abuso sexual infantil corresponde ao envolvimento de uma criança em uma atividade sexual que ela não compreende e para a qual, de acordo com o seu nível de desenvolvimento ou outra circunstância, não pode dar o seu consentimento. Este fenômeno viola as leis ou os tabus sociais e corresponde a uma atividade sexual entre uma criança e um adulto ou outra criança, que se encontram em uma relação assimétrica de responsabilidade, confiança ou poder, e busca satisfazer as necessidades da pessoa que se encontra na posição de privilégio”. Assim como esta, outras definições propostas (Barudy, 1998; Finkelhor et al., 2015; Pereda et al., 2009) vão na mesma direção, ao estabelecer claramente a existência de uma assimetria de poder, a falta de consentimento, a adversidade precoce e o problema de saúde pública. As definições mais contemporâneas (Royal Commission, 2014) vão além do abuso sexual com contato físico e incluem as estratégias prévias ao abuso.

Nesta pesquisa, consideraremos o abuso sexual infantil de acordo com a seguinte definição de Murillo (2020, p. 436):

Definição

O abuso sexual infantil é todo ato e processo de atos em que se expõe ou envolve uma criança ou adolescente em qualquer atividade sexualizada, utilizando a assimetria que dão a autoridade, a confiança, a dependência (afetiva, social ou econômica), o poder, a força, o medo, a cultura, a capacidade de compreensão, a necessidade ou outras vulnerabilidades, manipulando, confundindo, eliminando ou viciando o consentimento. Esses atos podem incluir, embora não se reduzam a esta lista: toques genitais; penetração oral, vaginal ou anal, com pênis, dedos ou outros objetos; toques em outras partes erógenas do corpo; incitação a tocar outras pessoas, masturbação, voyeurismo, exposição a situações sexuais, pornografia, abusos, estupros. Tanto as ações, táticas e estratégias de preparação desses atos (grooming presencial ou on-line) como as de silenciamento e descrédito da vítima e do seu entorno constituem também parte do processo do abuso sexual.

Tipos de abuso sexual

O Third National Incidence Study of Child Abuse and Neglect (NIS-3; Sedlak e Broadhurst, 1996) classifica o abuso sexual em três tipos, de acordo com a transgressão dos limites corporais. São eles: a) o abuso sexual com penetração/estupro (penetração oral, anal ou genital do pênis, ou a penetração anal, genital, digital ou outro tipo de penetração); b) o abuso com contato físico e sem penetração (atos em que ocorreu alguma forma de contato genital, mas em que não há indicação específica de penetração); e c) o abuso sexual sem contato físico genital (atos não especificados sem contato genital, tais como carícias ou exposição, além de denúncias relacionadas com a supervisão inadequada ou inapropriada das atividades sexuais voluntárias de uma criança).

Embora haja situações que podem ficar fora da classificação anterior, tais como a exploração sexual comercial infantil, o presente estudo compreende o abuso de acordo com essas categorias em razão de sua validação em outros contextos. Por sua configuração e por suas consequências, a exploração sexual comercial infantil pertence a outro conjunto de violação sexual, sub-representado nesta pesquisa, razão pela qual será considerada em pesquisas futuras.

Consequências do abuso sexual infantil no bem-estar

O bem-estar individual está intimamente relacionado com uma ampla gama de indicadores emocionais, físicos e sociais, que estão vinculados à integração social das pessoas e à sua saúde (Jiang et al., 2013). Por essa razão, o seu estudo baseou-se em duas grandes perspectivas: a eudaimônica e a hedônica. A primeira refere-se à busca da transcendência por meio de uma vivência plena (Vázquez et al., 2009), enquanto a segunda se concentra nos aspectos avaliativos que as pessoas fazem de suas vidas por meio de afetos e cognições (Diener, 2009). O bem-estar hedônico inclui a satisfação com a vida, entendida como os juízos que cada pessoa faz sobre diferentes aspectos da própria vida.

As consequências do abuso sexual durante a infância foram amplamente estudadas, o que evidenciou o seu impacto na saúde e em diferentes variáveis associadas ao bem-estar, tais como o transtorno de estresse pós-traumático, a ansiedade, a depressão, a esquizofrenia, o abuso de substâncias, os problemas comportamentais e interpessoais, as dificuldades na esfera da sexualidade ou novas revitimizações (Lamoureux et al., 2012). Do mesmo modo, diferentes estudos relatam uma relação entre o número de adversidades vividas durante a infância e a gravidade de uma ampla gama de sintomas e transtornos psicopatológicos na vida adulta (Clark et al., 2010; Koskenvuo et al., 2010; Turner et al., 2010).

Em relação à saúde física e mental, a revisão de Hailes et al. (2019) constatou que essa experiência está relacionada com riscos elevados de problemas psicossociais, psiquiátricos e de saúde física a longo prazo, com fortes associações com a esquizofrenia, o transtorno de estresse pós-traumático e o abuso de substâncias na idade adulta.

No plano socioeconômico, o abuso sexual infantil associa-se em parte à pobreza e às condições socioeconômicas das vítimas (Font e Maguire-Jack, 2016; Klest, 2012), assim como a uma probabilidade mais baixa de trabalhar na idade adulta por problemas de saúde física ou mental, a maiores dificuldades financeiras e a uma renda mais baixa (Barrett et al., 2014; Curie e Widom, 2011; Hamby et al., 2018).

Assim como se determinou a existência de fatores de proteção diante do abuso sexual infantil e de suas consequências, tais como viver em um bairro seguro e frequentar uma escola segura (Moore e Ramírez, 2015), observou-se também que o gênero, o nível socioeconômico e a ausência de um vínculo afetivo saudável com pelo menos um adulto significativo representam fatores de risco de sofrer abuso sexual (Cantón e Cortés, 2015; Franco e Ramírez, 2016; Runarsdottir et al., 2019).

A abordagem do curso de vida é possivelmente a melhor maneira de compreender as consequências do estresse cumulativo na saúde, pois oferece um marco teórico a partir do qual se pode compreender o impacto das experiências de adversidade precoce (Hajat et al., 2020). Nessa linha, as pesquisas evidenciaram que as pessoas que sofreram abuso sexual infantil têm mais probabilidade de sofrer vitimizações interpessoais quando adultas e revitimizações sexuais na idade adulta (Hajat et al., 2020; Montalvo-Liendo et al., 2015). Papalia et al. (2017) observaram que os abusos sexuais ocorridos entre os 12 e os 16 anos surgiram como um fator de risco significativo para o pertencimento às trajetórias de revitimização emergente ou crônica.

Isso condiz com pesquisas que sustentam uma associação entre o abuso sexual ocorrido durante a adolescência e um risco maior de revitimização na vida adulta (Ogloff et al., 2012). Nesse sentido, Steine et al. (2017) assinalam que as evidências indicam que esses fatores podem provocar uma trajetória mais grave do transtorno de estresse pós-traumático a longo prazo, e que as vítimas que se encontram na trajetória dos sintomas mais elevados relataram perceber atualmente menos apoio social e mais problemas de relacionamento.

No Chile, foram realizados alguns estudos para compreender melhor essa trajetória e as suas consequências posteriores, destacando-se o papel mediador das atribuições de culpa (a si mesmo, a outros e ao próprio agressor) e do estilo de enfrentamento evitativo no desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático associado ao abuso sexual infantil (Cantón-Cortés et al., 2011). Villarroel et al. (2014) constataram que variáveis como o apoio social — especialmente o familiar —, o gênero, a etapa do desenvolvimento da vítima, a existência de vitimizações mais intrusivas e/ou frequentes, um grau maior de familiaridade entre agressor e vítima e as estratégias de assédio por parte do agressor teriam um impacto na cognição e no desenvolvimento posterior da vítima.

Estudos de prevalência no mundo e no Chile

Diferentes estudos de prevalência em nível mundial concluem que cerca de 12% da população infantil foi vitimizada sexualmente (Stoltenborgh et al., 2011). Uma análise de 65 pesquisas com informações sobre 21 países evidenciou uma prevalência média na população geral de 19,2% para as meninas e de 7,4% para os meninos (Pereda et al., 2009), semelhante ao observado por Stoltenborgh et al. (2011), que relataram níveis de ocorrência mais altos nas meninas (18%) do que nos meninos (7,6%).

Entre 2000 e 2019, foram realizadas no Chile cinco pesquisas para recolher dados sobre a prevalência e as características do abuso sexual infantil (ver Tabela 1). Além disso, foram compilados dados de entidades estatais como o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Direitos Humanos, cujos achados foram analisados no Segundo Relatório sobre Saúde Sexual, Saúde Reprodutiva e Direitos Humanos no Chile (Dides Castillo et al., 2018). Há ainda fontes alternativas, como a Pesquisa de Bem-Estar Estudantil (Lehrer et al., 2009), que também relatou informações sobre experiências de violência sexual antes dos 14 anos na população chilena.

Tabela 1 Pesquisas sobre abuso sexual de crianças e adolescentes no Chile

Nome Ano Amostra Gênero Faixa etária Local de aplicação
1ª Pesquisa nacional sobre polivitimização de crianças e adolescentes (Ministerio del Interior y Seguridad Pública, 2017a) 2017 19,687 Misto 12 a 17 anos Escola
Terceira pesquisa nacional de violência doméstica e familiar contra a mulher e crimes sexuais (Ministerio del Interior y Seguridad Pública, 2017b) 2017 6,824 Mulheres 15 a 65 anos Domicílio
Pesquisa nacional de vitimização por violência doméstica e familiar e crimes sexuais (Ministerio del Interior y Seguridad Pública, 2013) 2013 6,004 Misto 11 a 17 anos Escola
6,050 Mulheres 15 a 65 anos Domicílio
Pesquisa nacional de vitimização por violência doméstica e familiar e crimes sexuais (Ministerio del Interior y Seguridad Pública, 2008) 2008 1,109 Misto 11 a 17 anos Escola
1,162 Mulheres 15 a 59 anos Domicílio
Quarto estudo sobre maus-tratos infantis do UNICEF (Larraín e Bascuñán, 2012) 2012 1,555 Misto 8º ano do ensino fundamental Escola

Há consenso de que o abuso sexual de crianças e adolescentes é um fenômeno de alta prevalência no Chile, de que o agressor costuma ser homem e conhecido da vítima — com frequência um familiar — e de que é mais provável que as vítimas sejam mulheres. No entanto, ainda faltam informações que permitam conhecer a perspectiva que os sobreviventes de abuso sexual têm sobre essas variáveis (por exemplo, a sua própria percepção de como isso os afetou), assim como as sequelas que essas experiências têm no seu bem-estar atual, pois a maioria desses estudos se concentra em crianças e jovens e analisa os sintomas e as consequências mais imediatas do fenômeno.

Por isso, este estudo procura ampliar a compreensão do abuso sexual infantil, com um enfoque no nível socioeconômico, no tipo de abuso e, especialmente, nas suas possíveis consequências percebidas e no bem-estar na vida adulta. Especificamente, e com base na literatura revisada, espera-se observar que o bem-estar atual seja mais baixo nas pessoas que declarem ter sido vítimas de abuso (hipótese 1), especialmente no caso daquelas com acesso socioeconômico mais baixo (hipótese 2). Do mesmo modo, espera-se que, quanto maior a gravidade do tipo de abuso, mais baixo seja o bem-estar (hipótese 3) e que as pessoas que declarem um impacto maior do evento em suas vidas manifestem bem-estar mais baixo (hipótese 4).

Método

O desenho da pesquisa foi não experimental. A pesquisa enquadrou-se entre os estudos de tipo transversal, descritivo e correlacional.

Procedimento para a obtenção da amostra

Os participantes foram convidados a participar de duas maneiras. O primeiro método de aplicação foi por meio de uma plataforma paga de painéis on-line. Por essa plataforma, enviou-se aos participantes o link do estudo, e eles receberam uma compensação pela participação. A compensação consistia em pontos concedidos pela plataforma, que podiam depois ser trocados por produtos. Os participantes que não quiseram participar da pesquisa ou que declararam não ter sido vítimas também receberam pontos, o que possivelmente contribuiu para que não houvesse respostas falsas. Ao acessar o link do estudo, apresentava-se aos participantes um termo de consentimento informado com os detalhes do estudo e o contato dos pesquisadores responsáveis. Se aceitassem participar, eram direcionados a uma página para preencher os seus dados demográficos e, em seguida, responder à pesquisa.

No caso da amostra on-line, o fornecedor estratificou os envios da pesquisa de acordo com o sexo (aproximadamente 50% homens e 50% mulheres) e com os níveis socioeconômicos ABC1, C2, C3 e D (9,0%, 19,3%, 28,1% e 43,6%, respectivamente). As categorias de nível socioeconômico utilizadas nas análises do estudo foram calculadas a posteriori com base em duas perguntas detalhadas na seção de instrumentos.

O segundo método de aplicação foi por meio de questionários em papel. Nesse caso, um/a entrevistador/a voluntário/a visitou casas de diferentes comunas (municípios) selecionadas de forma aleatória. A seleção baseou-se nos mapas e nas informações da Região Metropolitana presentes no site www.mientorno.cl. Com base nesses mapas, foram selecionados quarteirões buscando obter heterogeneidade quanto ao nível socioeconômico. Uma vez nas casas, o/a entrevistador/a pedia para falar com uma pessoa maior de 18 anos, a quem se explicavam o objetivo da pesquisa e os elementos éticos a ela relacionados. Se a pessoa aceitasse participar, explicava-se que receberia o questionário em papel junto com um envelope e que ambos seriam recolhidos no dia seguinte. Dessa maneira, buscava-se assegurar a confidencialidade e o anonimato dos participantes.

No caso da aplicação em papel, não se previu uma compensação para os participantes. Considerando que isso poderia gerar diferenças nas respostas entre os dois formatos de aplicação, comparou-se a proporção de pessoas que declararam ou não ser vítimas em cada um. Não se observou associação entre o tipo de aplicação e ser vítima (χ²(1)=0,193; p=,660) nem quanto ao tipo de abuso declarado (χ²(1)=0,161; p=,923). Isso pode ser interpretado como evidência de que nenhum método de aplicação favoreceu, por exemplo, respostas por desejabilidade.

Considerações éticas

Quanto às considerações éticas, antes de iniciar o estudo, o questionário e o desenho de aplicação foram apresentados a um comitê ad hoc da Fundación para la Confianza, integrado por cinco profissionais. A partir dos seus comentários, foram feitos ajustes no instrumento final e no modo de aplicação. Além disso, como a aplicação se dava por autorrelato, o questionário apresentava informações de contato com a Fundação. Essas informações incluíam um número de emergência, endereço e e-mail, disponíveis para atender os participantes que precisassem. A todos os participantes foi deixada uma folha com os dados de contato, caso considerassem que precisavam recorrer gratuitamente à área de atendimento especializado da organização. No entanto, nenhum participante fez uso dela, pelo menos explicitamente, durante o período de aplicação da pesquisa.

Procedimento de aplicação do instrumento

O instrumento respondido pelos participantes nos dois formatos de aplicação consistia em quatro seções, destinadas a apresentar o termo de consentimento informado do estudo, preencher dados demográficos (sexo, idade e perguntas para avaliar o nível socioeconômico), avaliar o bem-estar e indagar sobre o possível abuso sexual e as suas características.

Na última seção, apresentava-se uma lista com 14 tipos diferentes de abuso sexual e a pergunta “Durante a sua infância ou adolescência (antes de completar 18 anos), foi vítima de alguma das seguintes situações, tendo sido manipulado/a, enganado/a, submetido/a ou obrigado/a por outra pessoa?”. As opções eram as seguintes: interações sexuais em troca de dinheiro, proteção, bens materiais ou de outro tipo; participação em material pornográfico; introdução de objetos ou dedos no ânus, na vagina ou na boca; sexo oral; estupro (penetração carnal, anal e/ou vaginal); expor os próprios genitais, masturbar outra pessoa; receber toques ou apalpações, tocar ou apalpar outra pessoa, beijos de língua, incitar a observar relações sexuais, incitar a observar os genitais de outra pessoa, exposição a pornografia e receber propostas sexuais verbais.

Se a resposta à pergunta fosse “Não”, agradecia-se e explicava-se que não era necessário continuar respondendo. Se a resposta fosse “Sim”, dava-se a opção de marcar as situações das quais a pessoa foi vítima. Do total de pessoas que declararam ter sido vítimas, 83,1% (n=167) especificou o tipo de abuso. Em seguida, continuava-se com as perguntas sobre a experiência de abuso.

Por fim, ao terminar de responder em ambas as modalidades, e sabendo que uma pesquisa como esta pode desencadear processos traumáticos, apresentavam-se as informações de contato da Fundación para la Confianza, caso a pessoa quisesse buscar acompanhamento ou ajuda sobre o tema. Para resguardar a confidencialidade e o anonimato, não se pede às pessoas que se aproximam ou entram em contato com a Fundação que indiquem a sua procedência, razão pela qual não é possível determinar se algum participante buscou informações posteriormente.

Participantes

Foram contatadas 653 pessoas (77,5% on-line). Delas, 12 (1,84%) decidiram não participar do estudo depois de ler o termo de consentimento informado, de modo que o número final de participantes deste estudo foi de 641 pessoas (245 [52,9%] mulheres).

A média de idade foi de 33,53 anos (DP = 12,31). Quanto ao país de origem, 623 (97,2%) pessoas eram do Chile, cinco (0,8%) do Peru, quatro (0,6%) da Colômbia, três (0,5%) da Venezuela, duas (0,3%) da Bolívia, duas (0,3%) de Cuba, uma (0,2%) da República Dominicana e uma (0,2%) da Argentina.

Quanto ao nível socioeconômico, os participantes foram classificados em três grupos com base em duas perguntas feitas na segunda seção da pesquisa. Dessa maneira, 25,0% (n=160) ficaram no grupo “baixo”, 53,0% (n=340) no “médio” e 22,0% (n=141) no “alto”. A Tabela 2 contém as estatísticas descritivas do número de participantes por sexo e nível socioeconômico, de acordo com o tipo de aplicação e com a declaração de terem sido ou não vítimas.

Tabela 2 Número e porcentagem de participantes que declaram ter sido ou não vítimas de abuso sexual infantil, segundo sexo e nível socioeconômico

Tipo de aplicação Vítima Sexo NSE baixo NSE médio NSE alto Total
On-line Não Homem 62 (30.5%) 92 (45.3%) 49 (24.1%) 203 (100%)
Mulher 24 (17.6%) 85 (62.5%) 27 (19.9%) 136 (100%)
Total 86 (25.4%) 177 (52.2%) 76 (22.4%) 339 (100%)
Sim Homem 16 (32.7%) 23 (46.9%) 10 (20.4%) 49 (100%)
Mulher 21 (19.3%) 64 (58.7%) 24 (22%) 109 (100%)
Total 37 (23.4%) 87 (55.1%) 34 (21.5%) 158 (100%)
Total 123 (24.7%) 264 (53.1%) 110 (22.1%) 497 (100%)
Papel Não Homem 9 (23.1%) 19 (48.7%) 11 (28.2%) 39 (100%)
Mulher 20 (32.3%) 29 (46.8%) 13 (21%) 62 (100%)
Total 29 (28.7%) 48 (47.5%) 24 (23.8%) 101 (100%)
Sim Homem 1 (9.1%) 7 (63.6%) 3 (27.3%) 11 (100%)
Mulher 7 (21.9%) 21 (65.6%) 4 (12.5%) 32 (100%)
Total 8 (18.6%) 28 (65.1%) 7 (16.3%) 43 (100%)
Total 37 (25.7%) 76 (52.8%) 31 (21.5%) 144 (100%)
Total 160 (25.0%) 340 (53.0%) 141 (22.0%) 641 (100%)

Instrumentos

Nível socioeconômico

Considerou-se um indicador do nível socioeconômico dos participantes com base no nível de escolaridade e na ocupação do principal provedor/a do domicílio. Com base nisso, os participantes foram classificados em três níveis (baixo, médio ou alto).

Personal Wellbeing Index [PWI]

Adaptação no Chile por Oyanedel et al., 2015. Concentra-se em calcular a qualidade de vida por meio de sete dimensões, cada uma avaliada com um item ao qual se deve responder com base em uma escala Likert que varia entre 0 (“Completamente insatisfeito”) e 10 (“Completamente satisfeito”). Todos os itens são apresentados com a estrutura “Quão satisfeito/a está com…?”. Para a sua análise, calcula-se a média aritmética dos sete itens.

As percepções e avaliações subjetivas são especialmente relevantes quando se trata deste tema, pois são melhores preditores do bem-estar do que as características concretas, tais como a renda. Por exemplo, Heins et al. (2011) observaram que as vítimas que também apresentavam síndrome de fadiga crônica na idade adulta declaravam maior sofrimento psicológico, mesmo quando os seus níveis de fadiga não eram maiores que os de pessoas que não haviam sido vítimas. Assim, depois de analisar a literatura sobre os efeitos a longo prazo do abuso sexual infantil, decidiu-se utilizar neste estudo três dos sete itens do PWI (satisfação com a saúde, com a segurança atual e com as relações interpessoais). Isso porque a maioria dos estudos e metanálises se concentra nos efeitos do abuso na saúde mental e física, nas relações pessoais e na segurança pessoal (p. ex., Corcoran e McNulty, 2018; Hailes et al., 2019; Hughes et al., 2017; McCabe e Murphy, 2016; Papalia et al., 2017).

A consistência interna com base nos três itens utilizados, medida pelo coeficiente alfa de Cronbach, foi de 0,65 (IC 95%=0,60-0,70). As correlações item-total foram homogêneas, variando entre 0,44 e 0,48, e a média da escala foi de 7,22 (DP=1,85).

Categorização dos tipos de abuso

Os participantes deviam indicar o tipo de abuso do qual foram vítimas. Para isso, apresentava-se a eles uma lista de 14 tipos diferentes, que foram depois agrupados de acordo com a categorização do NIS-3, da seguinte maneira:

a. Estupro: interações sexuais em troca de dinheiro, proteção, bens materiais ou de outro tipo; participação em material pornográfico; introdução de objetos ou dedos no ânus, na vagina ou na boca; sexo oral e estupro (penetração carnal, anal e/ou vaginal).

b. Abuso com contato físico: expor os próprios genitais, masturbar outra pessoa.

c. Abuso sem contato físico genital: receber toques ou apalpações, tocar ou apalpar outra pessoa, beijos de língua, incitar a observar relações sexuais, incitar a observar os genitais de outra pessoa, exposição a pornografia e receber propostas sexuais verbais.

Avaliação do impacto do evento

Apresentou-se aos participantes o item “Em que medida acredita que essa experiência o afetou negativamente?”, ao qual deviam responder em uma escala de cinco níveis, em que 0 equivalia a “Nada” e 4 equivalia a “Muito”.

Plano de análise

O teste das hipóteses foi realizado com o software Jamovi (The Jamovi Project, 2020). Para examinar possíveis associações entre variáveis categóricas da amostra, foram realizados testes qui-quadrado de independência. Para testar a primeira, a segunda e a terceira hipóteses, foram realizados testes t de Student, análises fatoriais de variância e análises fatoriais de covariância, a fim de determinar diferenças entre grupos e possíveis interações de fatores sobre as variáveis de interesse. Nesses casos, calculou-se também o tamanho do efeito por meio das medidas d de Cohen (d) e eta-quadrado parcial (ηp2). Por fim, para testar a quarta hipótese, foram realizadas análises de correlação de Pearson, de Spearman e ponto-bisseriais, além de uma análise de regressão linear para avaliar a relação de diferentes variáveis do estudo com o bem-estar atual.

Resultados

Estatísticas descritivas: caracterização das vítimas e tipos de abuso

Do total de participantes, 201 (31,4%) declararam ter sido vítimas de algum dos 14 tipos de abuso antes de completar 18 anos. Destes, 141 (70,1%) eram mulheres. A Tabela 3 apresenta a distribuição da amostra segundo a declaração de ter sido ou não vítima, o tipo de abuso e o nível socioeconômico.

  • 641pessoas adultas da Região Metropolitana de Santiago responderam à pesquisa (2018)
  • 31,4%declararam ter sido vítimas de algum dos 14 tipos de abuso antes dos 18 anos (201 pessoas)
  • 41,6%das mulheres o declararam, frente a 19,9% dos homens
  • 70,1%das pessoas que declararam ter sido vítimas eram mulheres (141 de 201)
A amostra e a prevalência declarada, segundo o artigo.

A associação entre o sexo e ter sido vítima foi significativa, com χ²(1)=35,023, p<,001, o que indica que as mulheres tenderiam a declarar em maior proporção ter sido vítimas. Cabe indicar que não houve relação entre o nível socioeconômico e ter sido ou não vítima.

Tabela 3 Número e porcentagem de vítimas/não vítimas, no total e por tipo de abuso, segundo sexo e nível socioeconômico

Homem Mulher NSE baixo NSE médio NSE alto Total
Vítima: sim 60 (19.9%) 141 (41.6%) 45 (28.1%) 115 (33.8%) 41 (29.1%) 201 (31.4%)
Vítima: não 242 (80.1%) 198 (58.4%) 115 (71.9%) 225 (66.2%) 100 (70.9%) 440 (68.6%)
Tipo de abuso: estupro 11 (3.6%) 28 (8.3%) 9 (5.6%) 23 (6.8%) 7 (5.0%) 39 (6.1%)
Tipo de abuso: com contato físico 9 (3.0%) 32 (9.4%) 7 (4.4%) 20 (5.9%) 14 (9.9%) 41 (6.4%)
Tipo de abuso: sem contato físico genital 33 (10.9%) 121 (35.7%) 32 (20%) 86 (25.3%) 36 (25.5%) 154 (24.0%)

Nota: A soma dos tipos de abuso (234) é maior que o número de pessoas que declararam ser vítimas (201) porque uma mesma pessoa pôde declarar ter sido vítima de mais de um tipo de abuso.

Considerando os três tipos de abuso, observou-se uma associação entre o sexo e os tipos de abuso “estupro” (χ²(1)=5,959, p=,015), “com contato físico” (χ²(1)=11,130, p=,001) e “sem contato físico genital” (χ²(1)=53,670, p<,001). Em todos os casos, as mulheres foram vítimas em maior porcentagem, enquanto nenhum dos três tipos esteve associado ao nível socioeconômico.

Porcentagem de homens e de mulheres que declararam ter sido vítimas, no total e por tipo de abuso Barras horizontais com dados da Tabela 3. No total: homens 19,9% (60), mulheres 41,6% (141). Estupro: homens 3,6% (11), mulheres 8,3% (28). Com contato físico: homens 3,0% (9), mulheres 9,4% (32). Sem contato físico genital: homens 10,9% (33), mulheres 35,7% (121). Homens Mulheres Declararam ter sido vítimas 19.9% (60) 41.6% (141) Estupro 3.6% (11) 8.3% (28) Com contato físico 3.0% (9) 9.4% (32) Sem contato físico genital 10.9% (33) 35.7% (121)
Porcentagem de homens (302) e de mulheres (339) da amostra que declararam ter sido vítimas, no total e por tipo de abuso. Dados da Tabela 3; uma pessoa pôde declarar mais de um tipo.

Comparação do bem-estar entre vítimas e não vítimas segundo o nível socioeconômico

Para testar as duas primeiras hipóteses, realizou-se uma análise de covariância de duas vias, com o fato de ter sido ou não vítima de algum tipo de abuso e o nível socioeconômico como fatores, e o sexo e a idade como covariáveis. A variável dependente foi o bem-estar.

Observou-se uma interação significativa entre os dois fatores, F(2; 535) = 4,599, p=,010, ηp2 =,017. A partir disso, realizou-se uma análise de efeitos principais simples com correção de Bonferroni (p<,017), com base na qual só se observaram diferenças no grupo socioeconômico baixo. Nesse caso, as pessoas que foram vítimas tiveram uma média 1,11 ponto abaixo das que não foram vítimas, p=,001. Além disso, as vítimas de nível socioeconômico baixo tiveram uma média inferior à dos outros dois grupos de vítimas, com 1,06 ponto a menos que as vítimas de nível médio e 1,94 ponto a menos que as vítimas de nível alto (p=,003 e p<,001, respectivamente). A esse respeito, é interessante notar que, no grupo de pessoas que declaram não ter sido vítimas, só se observa uma diferença inferior a 1 ponto (,74) entre o nível médio e o alto (p=,011), sem outras diferenças que indiquem alguma tendência (Figura 1).

Figura 1. Médias ajustadas de bem-estar por nível socioeconômico (vítimas/não vítimas) Barras verticais, escala de bem-estar de 0 a 10. Nível baixo: vítima 6,07, não vítima 7,18. Nível médio: vítima 7,12, não vítima 7,13. Nível alto: vítima 8,00, não vítima 7,87. 0 2 4 6 8 10 6.07 7.18 7.12 7.13 8.00 7.87 Baixo Médio Alto Vítima Não vítima
Figura 1. Médias ajustadas de bem-estar (escala de 0 a 10) por nível socioeconômico, entre as pessoas que declararam ter sido vítimas e as que não o declararam. O original mostra também barras de erro (2 E.P.).

Tipos de abuso, nível socioeconômico e bem-estar

Quanto à terceira hipótese, referente a possíveis diferenças no bem-estar atual entre vítimas e não vítimas de cada um dos três tipos de abuso, foram realizadas análises de covariância com o tipo de abuso e o nível socioeconômico como fatores, e a idade e o sexo como covariáveis. Nesse caso, considerou-se, para cada pessoa que declarou ser vítima, o tipo de abuso mais grave declarado.

Não se observou interação entre os dois fatores (F(4; 152) =,553, p=,697, ηp2 =,014), mas sim um efeito direto do nível socioeconômico (F(2; 152) = 11,117, p<,001, ηp2 =,178) e do tipo de abuso (F(2; 152) = 5,113, p=,007, ηp2 =,063).

No caso do nível socioeconômico, as comparações múltiplas mostraram que o nível baixo teve uma média de bem-estar significativamente inferior à do médio (p=,002) e à do alto (p<,001), e que o nível médio também a teve em relação ao alto (p=,019). A comparação entre os diferentes tipos de abuso mostrou que as pessoas que viveram abuso sem contato físico declararam níveis de bem-estar mais altos que as que viveram estupro (p=,012) e as que viveram abuso com contato físico (p=,012).

A análise dos efeitos principais revelou diferenças entre os diferentes níveis dos fatores. Como se observa na Figura 2, as vítimas do nível socioeconômico baixo que relataram estupro e abuso com contato físico manifestaram menos bem-estar, enquanto as vítimas do grupo socioeconômico alto que relataram ter sofrido abuso sem contato físico relataram significativamente mais bem-estar.

Figura 2. Médias de bem-estar por tipo de abuso e NSE Barras verticais, escala de bem-estar de 0 a 10. Estupro: nível baixo 5,05, médio 6,69, alto 7,59. Abuso com contato físico: baixo 5,13, médio 6,72, alto 7,28. Abuso sem contato físico: baixo 6,55, médio 7,18, alto 8,45. 0 2 4 6 8 10 5.05 6.69 7.59 5.13 6.72 7.28 6.55 7.18 8.45 Baixo Médio Alto Baixo Médio Alto Baixo Médio Alto Estupro Abuso com contato físico Abuso sem contato físico
Figura 2. Médias de bem-estar (escala de 0 a 10) por tipo de abuso e nível socioeconômico (NSE) das pessoas que declararam ter sido vítimas. O original mostra também barras de erro (2 E.P.) e linhas que unem as barras com diferenças estatisticamente significativas, detalhadas abaixo.
Diferenças estatisticamente significativas indicadas na figura
Comparação p
Estupro, baixo — Estupro, alto <.001
Estupro, baixo — Com contato físico, alto <.001
Com contato físico, baixo — Sem contato físico, médio <.001
Com contato físico, médio — Sem contato físico, alto <.001
Sem contato físico, médio — Sem contato físico, alto <.001
Estupro, baixo — Sem contato físico, médio <.01
Estupro, baixo — Sem contato físico, alto <.01
Estupro, médio — Sem contato físico, alto <.01
Com contato físico, baixo — Sem contato físico, alto <.01
Sem contato físico, baixo — Sem contato físico, alto <.01
Estupro, baixo — Estupro, médio <.05
Estupro, baixo — Com contato físico, baixo <.05
Estupro, baixo — Com contato físico, médio <.05
Estupro, alto — Com contato físico, baixo <.05
Com contato físico, baixo — Com contato físico, alto <.05

Avaliação do impacto do evento e bem-estar

Para testar a quarta hipótese, começou-se por correlacionar as variáveis do estudo, de modo a observar as possíveis relações da avaliação do impacto com cada uma delas. Em seguida, considerando as variáveis que se relacionaram significativamente, realizou-se uma regressão linear múltipla com o bem-estar como variável dependente. Como se observa na Tabela 4, o bem-estar correlacionou-se de forma negativa e estatisticamente significativa com a avaliação do impacto, e de forma positiva com o nível socioeconômico.

Tabela 4 Correlações (de Pearson, de Spearman e ponto-bisseriais) entre avaliação do impacto, bem-estar, sexo e nível socioeconômico

Bem-estar 1 2 3 4 5
Av. impacto (1) -.20**
NSE (2) .19*** -.08
Sexo (3) -.08 .30*** .03
Estupro (4) -.03 -.01 .01 .01
Com contato físico genital (5) -.02 .04 .01 .05 -.01
Sem contato físico genital .03 -.07 .04 .22*** -.05 -.04

** p < .01 *** p < .001

Dadas as correlações observadas entre as variáveis do estudo, realizou-se uma análise de regressão linear, considerando a avaliação do impacto e o nível socioeconômico como variáveis preditoras do bem-estar. O modelo foi significativo, com F(3; 183)=10,787, p<,001, e explicou 15,0% da variância. Tanto a avaliação do impacto (B= -0,256; p=,01) como o nível socioeconômico (B= 0,911; p<,001) entraram significativamente. Ou seja, quanto mais alto o nível socioeconômico e mais baixa a avaliação do impacto, maior o bem-estar observado.

  1. Hipótese 1

    Esperava-seBem-estar atual mais baixo nas pessoas que declaram ter sido vítimas de abuso.

    Observou-seDiferenças apenas no nível socioeconômico baixo: 1,11 ponto abaixo das pessoas que não foram vítimas (p=,001).

  2. Hipótese 2

    Esperava-seQue a diferença fosse maior nas pessoas com acesso socioeconômico mais baixo.

    Observou-seAs vítimas de nível baixo tiveram 1,06 ponto a menos que as de nível médio e 1,94 a menos que as de nível alto.

  3. Hipótese 3

    Esperava-seQuanto maior a gravidade do tipo de abuso, mais baixo o bem-estar.

    Observou-seAs pessoas que viveram abuso sem contato físico declararam mais bem-estar que as que viveram estupro ou abuso com contato físico (p=,012 em ambos os casos).

  4. Hipótese 4

    Esperava-seQuanto maior o impacto declarado do evento, mais baixo o bem-estar.

    Observou-seO bem-estar correlacionou-se negativamente com a avaliação do impacto (-,20). Com o nível socioeconômico, o modelo explicou 15,0% da variância.

As quatro hipóteses do estudo e o que os resultados mostraram.

Discussão e conclusões

Esta pesquisa procurou responder à pergunta sobre se o abuso sexual infantil pode ter correlatos com o bem-estar subjetivo na vida adulta. De acordo com os resultados obtidos, pode-se concluir que existem associações que permitem supor que isso efetivamente ocorre.

No plano descritivo, os resultados permitem observar uma relação entre ser mulher e ter sido vítima de abuso sexual antes de completar 18 anos. Isso é coerente com os estudos revisados, segundo os quais as mulheres são — em geral — as principais vítimas desses fatos. Isso pode ser potencializado se se considerar, além disso, que na sociedade chilena ainda existe uma alta desigualdade entre homens e mulheres quanto às condições de trabalho e ao acesso à educação ou à saúde, uma vez que o abuso sexual corresponde a um tipo de abuso de poder. Ainda assim, é importante ter em conta que os homens tendem a relatar menos as agressões sexuais de que foram objeto, de modo que a cifra pode corresponder a uma subnotificação.

Considerando os possíveis efeitos do abuso sexual sobre o bem-estar, uma variável que a revisão da literatura indicou ser necessário levar em conta foi o nível socioeconômico. Embora tenha havido uma relação entre este e ter sido vítima, observou-se, sim, que o bem-estar subjetivo foi mais baixo nas vítimas que pertenciam ao nível socioeconômico baixo. Se se considerar que nesta pesquisa o nível socioeconômico avaliado é o atual, e não aquele ao qual se pertencia no momento em que se foi vítima, podemos pensar em duas explicações derivadas da revisão da literatura.

Por um lado, pode ser que o bem-estar mais baixo seja um efeito do abuso que foi potencializado pelo contexto de acesso socioeconômico mais baixo durante a infância; por outro, pode ser também que as condições socioeconômicas atuais potencializem o possível efeito. Em ambos os casos, pode-se pensar que o nível socioeconômico pode ser um fator de proteção ou de risco para o bem-estar em pessoas de nível socioeconômico mais baixo. Por fim, embora outros estudos feitos na população geral adulta chilena também mostrem uma correlação positiva entre a renda e o bem-estar, nesta pesquisa observou-se que especificamente as vítimas de nível socioeconômico baixo declaravam níveis de bem-estar mais baixos.

Em relação ao tipo de abuso, observou-se bem-estar mais baixo nas pessoas que sofreram estupro. Isso poderia dever-se não só ao maior nível de intrusão física e psicológica desse tipo de abuso, mas também ao fato de que os abusos que envolvem qualquer tipo de penetração costumam ser resultado de processos mais longos e podem, portanto, prolongar os seus efeitos na subjetividade. Vale dizer que muitas vezes o estupro ocorre em fases avançadas de um processo abusivo, quando este já está em curso há algum tempo.

De maneira semelhante ao observado na comparação entre vítimas e não vítimas, tanto o estupro como o abuso com contato físico implicam bem-estar mais baixo no caso do nível socioeconômico baixo.

Considerando que o bem-estar subjetivo corresponde a uma avaliação cognitiva das condições de vida, é possível pensar que o bem-estar mais baixo observado em alguns grupos se relacionasse com a avaliação que se faz do evento. A esse respeito, os nossos resultados mostraram que efetivamente existe uma explicação negativa desta última variável sobre o bem-estar, além de uma positiva no caso do nível socioeconômico. Nesse sentido, é possível pensar que o maior acesso econômico pode também permitir maior acesso a processos de reparação (tais como terapias psicológicas) que facilitem a ressignificação do fato.

É necessário assinalar que um dos primeiros desafios na hora de realizar pesquisas e intervenções relacionadas com o abuso sexual infantil é a sua definição. Uma definição clara e abrangente pode permitir realizar pesquisas epidemiológicas que se aproximem de uma prevalência real, ou constituir-se em uma ferramenta para dar conta com maior clareza da experiência das pessoas que foram vítimas, mas que não conseguem defini-la com clareza. Ao contrário, definições pouco claras podem facilitar a revitimização ou o silenciamento (Dupret e Unda, 2013; Mantilla, 2015).

Por isso, esta pesquisa estabeleceu alguns elementos necessários para uma definição completa que permitisse não só a sua compreensão no âmbito da pesquisa acadêmica, mas que também fosse uma contribuição para a compreensão integral do fenômeno. Esses elementos são a consideração processual das estratégias e ações, e não unicamente do ato; a assimetria de poder simbólica; o aproveitamento da vulnerabilidade e da confiança; a manipulação do consentimento; os atos sexualmente abusivos; e as estratégias de preparação prévias ao abuso físico (Barudy, 1998; Finkelhor et al., 2015; OMS, 1999; Pereda et al., 2009; Perrone e Nannini, 1997; Royal Commission, 2014).

No entanto, pensamos que esta definição é passível de melhorias. Por exemplo, acreditamos ser necessário acrescentar a ela as estratégias posteriores aos atos sexualmente abusivos, que tendem a silenciar a vítima e o seu entorno. Além disso, é importante destacar que existem pessoas sem plena capacidade de compreensão (em particular, sexual), tais como lactentes, crianças, pessoas com diferentes tipos de comprometimento intelectual, entre outras. Por isso, acreditamos também que uma definição completa deve considerar e diferenciar a falta de compreensão por capacidade intelectual e a falta de compreensão da sexualidade.

Uma definição completa de abuso sexual infantil considera

  • As estratégias e ações como processo, e não unicamente o ato
  • A assimetria de poder simbólica
  • O aproveitamento da vulnerabilidade e da confiança
  • A manipulação do consentimento
  • Os atos sexualmente abusivos
  • As estratégias de preparação prévias ao abuso físico
  • O que os autores propõem acrescentar: as estratégias posteriores que tendem a silenciar a vítima e o seu entorno
  • O que os autores propõem acrescentar: diferenciar a falta de compreensão por capacidade intelectual e a falta de compreensão da sexualidade
Elementos da definição estabelecida pela pesquisa e melhorias propostas pelos autores.

Apesar da contribuição e da novidade desta pesquisa, ela tem alguns elementos e limitações que devem ser considerados. Primeiro, no plano metodológico, a prevalência do abuso foi alta em comparação com outras pesquisas sobre o tema. A esse respeito, neste estudo consideramos também o abuso sexual sem contato físico genital. Embora isso tenha influenciado a prevalência mais alta, foi uma decisão metodológica e operacional, já que, por se tratar de uma definição ampla de abuso, permitiu analisar os resultados de maneira segmentada e diferenciada por níveis.

Segundo, uma das limitações mais claras é a falta de aprofundamento nas perguntas que abordam o apoio percebido pelas vítimas. A esse respeito, seria interessante que pesquisas futuras abordassem, por exemplo, como as vítimas entendem o apoio recebido, que mecanismos de enfrentamento consideram mais eficazes e qual é o impacto percebido do apoio dos outros na sua experiência do abuso sexual.

Quanto às trajetórias de vida de adultos vítimas de abusos sexuais na infância, é necessário explicitar que foram um desafio e uma limitação relevante, principalmente porque não estavam contempladas no objetivo da presente pesquisa. Tendo em conta que com frequência não se sabe o que aconteceu nas trajetórias, este ponto apresenta-se como uma limitação do estudo, por se tratar de um aspecto retrospectivo e não de um aspecto presente. Nesse sentido, um melhor conhecimento das variáveis mediadoras relacionadas com a experiência de abuso sexual infantil permitirá uma compreensão maior dessa experiência.

Esta pesquisa enfrentou diversos desafios, tanto teóricos como metodológicos, e os seus resultados constituem também novos desafios para futuras investigações. Pensamos que a forma de definir conceitual e operacionalmente o abuso pode ajudar a lançar luz sobre próximas pesquisas e a dar conta do fenômeno dos abusos sexuais infantis a partir de um olhar mais abrangente, que envolva de maneira completa o processo de vitimização.

Referências

Autoria e afiliações. José Andrés Murillo (1, 2), Andrés Mendiburo-Seguel (3), María Pía Santelices (2, 4), Paulina Araya (4), Silvia Narváez (4), Catalina Piraino (4), Josefina Martínez (1, 2) e James Hamilton (1, 2, 5). (1) Fundación para la Confianza, Santiago, Chile. (2) Centro de Investigación del Abuso y la Adversidad Temprana (CUIDA, centro de pesquisa sobre abuso e adversidade precoce), Faculdade de Filosofia, Pontificia Universidad Católica de Chile. (3) Faculdade de Educação e Ciências Sociais, Universidad Andrés Bello. (4) Escola de Psicologia, Pontificia Universidad Católica de Chile. (5) Departamento de Saúde Pública, Pontificia Universidad Católica de Chile.

Sobre as autoras e os autores. José Andrés Murillo: licenciado em Filosofia, mestre em Sociologia do Poder e doutor em Ciências Jurídicas e Políticas, com menção em Filosofia Política (Universidade de Paris VII, Denis Diderot, França), MBA (Universidad Adolfo Ibáñez, Chile); diretor executivo da Fundación para la Confianza e membro do conselho diretivo do Centro CUIDA. Andrés Mendiburo-Seguel: psicólogo, mestre em Pesquisa e doutor em Psicologia Social (Universidade do País Basco/Euskal Herriko Unibertsitatea, Espanha); professor associado da Universidad Andrés Bello; linhas de pesquisa: bem-estar, humor e métodos experimentais em Ciências Sociais. María Pía Santelices: psicóloga, mestre e doutora em Psicologia e Psicopatologia Clínica (Université Lumière Lyon 2, França); docente da Escola de Psicologia (PUC, Chile) e diretora acadêmica do Centro CUIDA; linhas de pesquisa: apego, parentalidade, trauma precoce e saúde mental. Paulina Araya: psicóloga, mestranda em Psicologia Clínica (PUC, Chile); linhas de pesquisa: infância, adolescência, parentalidade, abuso sexual e saúde mental. Silvia Narváez: psicóloga, mestre em Psicologia Clínica (PUC, Chile); psicóloga da Fundación para la Confianza; linhas de pesquisa: saúde mental, trauma precoce, abuso sexual e parentalidade. Catalina Piraino: psicóloga, mestranda em Psicologia Clínica (PUC, Chile); psicóloga da Fundación para la Confianza; linhas de pesquisa: trauma precoce, saúde mental, abuso sexual, parentalidade, infância e adolescência. Josefina Martínez: psicóloga, mestre em Psicologia, com menção em Psicologia Clínica da Infância e da Adolescência (Universidad de Chile); diretora do Centro CUIDA. James Hamilton: médico, pesquisador do Departamento de Saúde Pública da Pontificia Universidad Católica de Chile.

Sobre esta edição. Versão web do artigo publicado em espanhol em Psicoperspectivas. Individuo y Sociedad, vol. 20, nº 1 (2021), recebido em 1º de julho de 2020 e aceito em 7 de janeiro de 2021. Financiamento: Centro de Investigación del Abuso y la Adversidad Temprana (CUIDA), Faculdade de Filosofia, Pontificia Universidad Católica de Chile. Publicado em acesso aberto sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0). Foram corrigidas erratas, as figuras foram redesenhadas com os mesmos valores e foram acrescentados infográficos que resumem os resultados. Como citar: Murillo, J. A., Mendiburo-Seguel, A., Santelices, M. P., Araya, P., Narváez, S., Piraino, C., Martínez, J. e Hamilton, J. (2021). Abuso sexual temprano y su impacto en el bienestar actual del adulto. Psicoperspectivas, 20(1). Publicação original · Baixar o PDF original (em espanhol)

Tradução da Fundación Para la Confianza. Em caso de divergência, prevalece a versão em espanhol. Versão em espanhol.