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Para la Confianza · por un mundo sin abuso
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Livro · José Andrés Murillo · Uqbar Editores · 2012

Confiança lúcida

Um ensaio sobre a confiança e a sua crise. Diante da desconfiança e da confiança cega, propõe a confiança lúcida: um espaço de luz, limites e cuidado onde é possível o reconhecimento mútuo.

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“É preciso uma luz para ver a luz”

Emmanuel Lévinas, Totalidade e infinito

Para ti, Antonia, e para a nossa filha Juana

A confiança, um conceito tão esquivo quanto necessário

A confiança é um desses raros conceitos tão difíceis de definir quanto necessários para compreender o humano, assim como a liberdade, a justiça ou a felicidade, embora com um grau de complexidade curiosamente superior. É que a confiança é uma energia invisível, difusa mas certa, que integra e sustenta a estrutura fundamental das relações pessoais, desde a intimidade da relação de cada um consigo mesmo até as estruturas sociais mais complexas. Não se trata de mais uma característica das relações humanas, mas de seu próprio fundamento, isto é, daquilo que torna possível que haja sociedade, e ainda mais além: que haja identidade pessoal. A confiança é a condição da coexistência.

Sociólogos, economistas, cientistas políticos e políticos de profissão ou vocação, corretores de bolsa e especialistas em marketing, em recursos humanos e administração sabem que o seu trabalho depende, de maneira radical, da confiança. Têm consciência de que qualquer gestão, ação e análise que queiram levar a cabo deve supor a confiança como elemento estrutural. A economia mundial depende da confiança dos mercados, dos consumidores e investidores; a estabilidade política de um país, o êxito de uma empresa e de um projeto, o estabelecimento de qualquer tipo de relação dependem todos da confiança, tanto interna quanto externa. Dependem da confiança para dentro, isto é, da equipe, e da confiança para fora, isto é, daquela que projetam para os outros.

Utiliza-se a confiança como referência e medida em todas as ciências sociais e em todos os âmbitos do conhecimento e da ação humanos, mas a sua estrutura interna, apesar de ser fundamental, ficou bastante desatendida. A importância filosófica da confiança é maior que a atenção que lhe foi dada na história. Na prática, ela é dada como sabida, óbvia, evidente por si mesma, como se fosse um conceito transparente, quando na realidade é um conceito muito difícil de apreender em si, em suas dinâmicas internas, suas condições, suas possibilidades, sua essência.

Há alguns conceitos valorativos parecidos com a confiança sobre os quais se escreveram, sim, centenas de obras, como a justiça, a verdade ou o poder. Essa diferença não é casual: em primeiro lugar, todos os conceitos supõem a confiança, repousam sobre ela. Para que haja justiça, verdade ou poder, deve haver confiança. Sem confiança, não é possível sequer falar desses conceitos. Que sentido teria falar da verdade, por exemplo, se não se confia em sua veracidade? Se não se confia na justiça, as suas medidas serão consideradas pura violência arbitrária e ela deixará de ser justiça. Em segundo lugar, a confiança se manifesta nesses conceitos. A confiança de um povo se manifesta em sua capacidade para a justiça, isto é, para agir com eficácia quando se rompem as normas fundamentais ou os seus contratos constituintes. A confiança também se manifesta em uma opinião pública que é informada de maneira adequada e transparente acerca das decisões que o poder político toma, assim como dos acontecimentos que ocorrem no país. Em terceiro lugar, todos esses conceitos são trabalhados no plano estritamente racional, isto é, estabelecem-se as condições lógicas para a sua pertinência e depois se verifica a ocorrência ou não dessas condições. As condições lógicas da verdade racional (a não contradição, o princípio de identidade etc.) são as que determinam se há ou não verdade, e isso de maneira muito clara. O mesmo acontece com a justiça e o poder. No entanto, com a confiança acontece algo muito diferente, já que a sua lógica transcende o plano estritamente racional e se instala no afetivo e emocional, embora sem negar, evidentemente, o racional. Estabelecer racionalmente as condições da verdade, da justiça ou do poder é uma tarefa relativamente fácil ou clara para a sua aplicação. A confiança, porém, move-se em uma lógica totalmente diferente, uma lógica que inclui o afetivo e que não pode ser traduzida em leis estritamente racionais. Não pode haver um silogismo nem um algoritmo verdadeiro da confiança, e os que foram esboçados não passam de probabilidades, jogo de riscos e oportunidades, que, afinal, nada têm a ver com a confiança. Essa é a riqueza e a dificuldade do conceito de confiança, que, sem negar a razão estrita, vai além dela, a transcende e até a orienta em e a partir de um plano afetivo. A lógica da confiança é uma lógica que integra o afetivo, o emocional e o racional. O problema disso é que no Ocidente não estamos acostumados a aceitar naturalmente essa integração; ao contrário, estamos acostumados à dissociação do pensar, do sentir, do corpo e da alma.

O Ocidente e a desconfiança

A nossa educação ocidental, enraizada na modernidade clássica, tentou desfazer-se das emoções e dos afetos, esquivá-los ou reprimi-los. A verdade objetiva não pode admitir a intromissão dos afetos, das paixões ou das emoções. Estes são considerados impurezas subjetivas na hora de falar da verdade, que deveria ser absoluta.

Desde o século XVII, com o nascimento da Ciência Nova e a universalização do método científico, tentou-se pôr entre parênteses as emoções, os sentimentos e até os sentidos, por serem erráticos e ambíguos no processo de estabelecer conhecimentos certos e verdadeiros. Para conhecer o objetivo, acreditava-se que era necessário eliminar todo resíduo subjetivo ou, ao menos, suspeitar dele. Confirmava-se desse modo, agora a partir das ciências, a velha suspeita que se tinha sobre a corporalidade: fonte de tentações, pecado, paixões desordenadas e, dali em diante, também de erro. Essa suspeita e esse desprezo pelo subjetivo deram lugar a uma dissociação quase definitiva do homem em relação a si mesmo: se quer conhecer a verdade, seja espiritual ou científica, deverá purificar-se de sua subjetividade e corporalidade, de seus sentidos e emoções. A educação moderna, sobre a qual ainda repousa a nossa (ao menos em parte), vai se centrar nessa “purificação” objetivista e dissociativa. Essa educação acaba sendo de uma enorme crueldade, tanto pessoal quanto interpessoal, por um lado, e emocionalmente cegante, por outro, além de ser também cientificamente incorreta.

A força com que se construiu o Ocidente, e que o levou até a beira da destruição, foi obtida a partir da desconfiança, do medo e da obsessão pela segurança. Muitos textos fundacionais da modernidade ocidental são textos de explícita desconfiança em si mesmo, no outro e no mundo (por exemplo, “O Leviatã”, de Hobbes, 1651; “Meditações metafísicas”, de Descartes, 1637). A dúvida e a suspeita generalizadas foram o clima; a desconfiança e o medo, a energia que pôs em marcha a mecânica pessoal e social do Ocidente. O resultado desse clima e dessa energia acaba sendo uma grande violência do homem contra si mesmo, contra o mundo e contra o outro. Podemos pensar que essa violência se verificou durante as guerras e revoluções do século XX, nas altas estatísticas de depressão e na mudança climática produzida pelo trato irresponsável dos homens com o mundo, e ainda hoje vivemos as consequências de uma cultura construída no medo e na desconfiança.

O poder e o medo

Essa maneira de relacionar-se consigo mesmo, com o vizinho e com o mundo traduz-se também em uma visão muito específica do poder. O poder, seguindo o modelo do “Leviatã” de Hobbes, tinha de ser capaz de infundir um medo muito maior ainda que o medo natural com que viviam os homens, já que só o medo controla os homens. Para isso, o Leviatã, isto é, o Estado, devia contar com uma enorme capacidade de violência, ainda que não a exercesse necessariamente. O poder do Estado garante-se, sob essa lógica, pelo medo constante dos homens. Se os homens perdem o medo, o poder perderia grande parte de sua eficácia e seria preciso sair em busca de uma nova fonte de legitimação. Por essa razão, um tipo de poder clássico não pode permitir que percamos o medo e o desejo ansioso de segurança. Imersos no medo, nós, seres humanos, somos tremendamente manipuláveis e aceitamos sem questionar qualquer tipo de abuso de poder, contanto que nos sintamos um pouco mais seguros.

Sob essa lógica, não só o poder central, mas também os poderes e as autoridades mais diretas, como os pais, os educadores, os policiais, dependerão do medo daqueles que têm a seu cargo para exercer a sua pequena porção de poder. A propaganda mais eficaz para manter o poder inquestionado é a insistência na necessidade de segurança por meio do medo. O medo e a ansiedade infinita e ilusória de segurança absoluta adormecem o sentido de liberdade e até da própria dignidade. Reduzem a liberdade à possibilidade de escolher entre duas ou três opções de consumo ou da própria segurança.

É preciso esclarecer que o medo é uma força instintiva que, na sua justa medida, sã e integrada, tende a desdobrar melhores possibilidades de sobrevivência. No entanto, quando é amplificado e utilizado como ferramenta política, cega e escraviza.

O medo que cega é eficaz a curto prazo e destrutivo a médio e longo prazo. Atiçar o medo, a desconfiança e a insegurança produz o efeito imediato de dar coesão às pessoas em torno de um poder violentamente protetor.

Então, anima-se, amplifica-se e exagera-se a desconfiança em relação a alguns objetos de temor, como o imigrante, quem pensa diferente, o pobre, o estrangeiro, o andarilho sem domicílio fixo e até o vizinho. Nós, homens, somos rápidos em nos embriagar de medo e em buscar desesperadamente políticas ameaçadoras, cruelmente punitivas, para saciar a nossa fome de segurança, uma fome que se alimenta da sua própria fome. Da propaganda nazista à guerra contra o terrorismo de G. W. Bush, tudo pode ser entendido a partir dessa lógica.

Seria possível explicar todo o terror do século XX, com os seus mais de cem milhões de mortes violentas, como um século em que o medo impôs a sua maneira de se relacionar. A busca de segurança pessoal, nacional, racial, histórica requer a violência para se estabelecer com todo o seu delírio. A unidade que o medo gera diante de um inimigo comum dá uma sensação de segurança mais tranquilizadora que a mágica convivência cotidiana com o incerto e com o estrangeiro. Mas essa unidade precisa de uma violência que se alimente de si mesma até destruir toda possibilidade de estabelecer relações livres e construtivas, isto é, não escravizadas pelo medo.

O poder existiu durante muito tempo para conservar uma aparente paz social por meio do medo desse mesmo poder. Ele seria utilizado contra todos aqueles que violassem a convivência pacífica e solitária dos homens, assegurando a paz social. Os homens, por sua vez, temem mais o conflito e a perturbação de sua tranquilidade que o poder e os seus excessos controlados. A sensação de segurança por ter um poder capaz de grande violência protetora fazia que se deixassem passar os excessos desse mesmo poder. Era até preferível não saber, ocultar, encobrir os excessos e abusos do poder, contanto que se conservasse intacta a sensação de segurança espiritual, pessoal, familiar, patrimonial. Nesse contexto, para conservar a sensação de segurança, era preciso confiar cegamente nos que tinham o poder.

Mas algo mudou abruptamente na humanidade. Talvez motivado pelas redes sociais e a sua luz onipresente, ou por uma virada espiritual, por um cansaço histórico ou pela consciência do perigo em que fica a humanidade ao fragilizar o planeta e os seus recursos.

Do poder da violência ao poder da confiança

Encontramo-nos em uma mudança de época marcada por um despertar em relação ao medo e aos abusos de poder. De maneira transversal, parece que a humanidade está começando a desenvolver uma espécie de mal-estar, de rejeição, quase diria uma alergia diante dos abusos de poder. Os excessos do poder, que antes eram considerados um mal aceitável, quase um custo necessário na busca de segurança, hoje começam a ser inaceitáveis. Está se tornando evidente a cegueira e a violência que a pura busca de segurança produz. Essa é a cegueira que tornou possível que verdadeiros delirantes narcisistas governassem vidas e povos durante o século XX, conduzindo-os à destruição de si mesmos, e não só isso, mas sendo, além disso, aceitos como necessários e, em alguns casos, até desejáveis. Líderes políticos, caudilhos, gurus sectários, ditadores totalitários e violentos foram aclamados e justificados durante grande parte do século XX no mundo inteiro, sustentados e alimentados pelo medo e pela desconfiança que os povos forjaram durante muito tempo.

A visão que se tinha do poder foi se transformando, e é possível que estejamos diante de uma das mudanças de paradigma mais importantes da história. Até pouco tempo atrás, a desconfiança e o medo que o desconhecido, o estrangeiro, a morte, a condenação, a loucura, a doença, a pobreza ou a exclusão produzem legitimavam um poder tão violento quanto ilusório na lógica da segurança. Hoje, ao contrário, é a confiança que vai se impondo como recurso imperioso de coexistência pacífica e garante da estabilidade política. O paradigma do poder violento que dava a sensação de segurança já deu provas suficientes de que se presta ao abuso, e a segurança absoluta que promete é claramente uma ilusão. Assim nasce a necessidade da confiança como um clima também de segurança, mas uma segurança diferente da que oferece o poder violento e ameaçador. A fragilidade da confiança é a sua própria garantia e segurança: se alguém a impõe, a exige ou a manipula, então a destrói.

Poder da violência

Legitima-se no medo do desconhecido e na busca de segurança. Presta-se ao abuso, e a segurança absoluta que promete é uma ilusão.

Poder da confiança

Recurso de coexistência pacífica e garante da estabilidade política. A sua fragilidade é a sua garantia: se alguém a impõe, a exige ou a manipula, a destrói.

Uma mudança de paradigma: do poder que se sustenta no medo ao poder que se sustenta na confiança.

A confiança e a política

O atual descontentamento cidadão, em escala mundial, é sintoma de uma ruptura profunda na estrutura da sociedade. Essa estrutura é a confiança. Não é preciso lembrar que atravessamos a pior crise de confiança em muito tempo, provavelmente a mais profunda desde que a confiança é objeto de medição. O preocupante é que sabemos bem que uma crise de confiança desencadeia facilmente uma crise política, econômica e social. Mais ainda: toda crise econômica e política começa a partir de uma crise de confiança.

Há um mantra contemporâneo em nossa sociedade que diz “reconstruamos a confiança” e que se repete sobretudo no plano político, institucional e econômico. No entanto, a confiança não se reconstrói por decreto. Ao contrário, qualquer obrigação de confiar destrói a confiança. A confiança nem sequer é uma realidade que se possa tratar diretamente, como a luz, que não se pode capturar nem encerrar, pois fazê-lo é eliminá-la, obscurecê-la. Mas é justamente aí que está a misteriosa garantia da confiança: é extremamente frágil e esquiva; não se pode forçá-la nem manipulá-la, pois essas são formas de destruí-la. Ao mesmo tempo, todo projeto político, social, pessoal, econômico, relacional, até existencial depende completamente dela. Fundamental e escassa, crítica e urgente, a confiança deve marcar a agenda nacional e mundial. Assim como até pouco tempo atrás foram o poder e a segurança, daqui em diante será a confiança.

A maioria dos discursos políticos e sociais supunha, até muito pouco tempo atrás, o barro original da confiança como um material básico e inquestionável. Hoje, só os delirantes poderiam dar por garantida a confiança de seus interlocutores. A cidadania “empoderada”, informada, lúcida, menos temerosa, alérgica aos abusos, quer voltar aos alicerces do contrato social fundamental e questionar o paradigma da confiança. Por isso é necessário problematizar a confiança, desvendar os seus processos e dinâmicas ocultas, o seu mistério e o seu milagre. É nesse mesmo sentido que se torna tão urgente enfrentar essa espécie de nova doença social que é a crise da desconfiança, enquanto princípio de violência e de deterioração social em todos os seus níveis.

A crise da confiança

Todos os estudos que procuram dar conta das diferentes realidades sociais, em escala mundial, deparam-se com uma crise generalizada da confiança: confiança pessoal, interpessoal e institucional. Insisto: a crise econômica e política que o mundo atravessa é basicamente uma crise da confiança, e sobre isso não há discussão. A confiança caiu aos níveis mais baixos da história desde que é medida, mas por quê? A explicação mais tosca e míope consistiria em responsabilizar as pessoas por terem menos capacidade ou disposição para a confiança. Mas não é um problema de capacidade nem de disposição; poderíamos dizer, antes, que o próprio paradigma da confiança está mudando, que não se trata de um novo limiar de confiança, mas de um novo paradigma.

O medo e a insegurança no plano social e existencial serviram durante muito tempo para induzir a confiar cegamente nos poderes e nas autoridades, mas isso está mudando. A confiança cega, por alguma razão, já não tem lugar na sociedade contemporânea, ou tem cada vez menos. É urgente e crítica uma análise da confiança em todos os seus níveis, e não só a partir do lamento das instituições tradicionais que perderam a confiança das pessoas, de seus afiliados, de seus fiéis e de suas equipes. Para isso é preciso adentrar o mistério da confiança, a sua lógica esquiva mas certa e radical, a sua fragilidade e a sua necessidade tanto existencial quanto social.

É evidente que nos encontramos em uma conjuntura histórica, e a minha proposta consiste em compreendê-la a partir da confiança, de sua crise e de sua nova perspectiva. Talvez sejam as redes sociais, a globalização e a transparência da informação pela internet, ou outro motivo, mas algo fez com que a estrutura da sociedade esteja mudando.

Assim como a escrita deu lugar ao estabelecimento das grandes civilizações, a imprensa forneceu as ferramentas para uma grande crítica e um grande questionamento, criando uma nova maneira de olhar o universo: a modernidade. Hoje algo está acontecendo com a existência da internet. A sua transparência e universalidade estão gerando uma crise, mas uma crise que chega ao próprio coração da civilização e de sua coesão interna: uma crise da confiança.

Mas não se deve ter medo das crises. A própria palavra quer dizer discernimento e decisão. Crise vem da palavra grega krinô, que significa julgar, separar, e separa-se e julga-se justamente para discernir, orientar-se, valorar, mudar e transformar. Uma crise de confiança é uma conjuntura incontornável; por isso é preciso voltar a olhar a confiança, levar a sério a sua crise, julgar e discernir.

Foi essa crise que me levou a pensar em um novo paradigma de confiança. Se pensamos que a atual crise de confiança coincide com a extrema transparência que os meios de comunicação atuais exigem, com a internet e a conexão cada vez mais imediata das pessoas pelas redes sociais, é porque talvez haja algo que essa transparência deixou a descoberto. A transparência deixou a luz entrar até esses lugares escuros onde ocorrem fatos que alguns querem manter ocultos e em silêncio: os abusos.

O abuso laboral, econômico, sexual, financeiro, social, e todo tipo de abuso obtém a sua força do segredo, do silenciamento do abuso. A pedra angular do abuso, em qualquer de suas formas, é o segredo, o silêncio, a ambiguidade, a escuridão. Por isso, o pior inimigo do abuso é a luz, a transparência, a clareza, a lucidez.

A pedra angular do abuso, em qualquer de suas formas, é o segredo, o silêncio, a ambiguidade, a escuridão.

Se o abuso destrói a capacidade de confiar, a transparência e a luz criam as condições para voltar a confiar. Essa é a conjuntura que transforma a crise da confiança em uma oportunidade. É preciso levar a crise ao seu extremo para transformar a confiança em uma confiança transparente, luminosa, lúcida.

Diante de uma crise de confiança como a atual, podemos pensar que a confiança é uma utopia e cair na escura e delirante tristeza da desconfiança. Mas a confiança tem uma insistência equivalente à nossa necessidade de voltar a confiar. Então será preciso exigir dela uma nova luz e transparência. Todos temos a sensação de que a humanidade está dando um passo importante em relação à confiança e à (in)tolerância aos abusos.

Não se pode viver humanamente na desconfiança, mas tampouco nos velhos paradigmas de uma confiança cega. Por isso proponho o da confiança a partir de uma perspectiva da lucidez, marcando uma diferença importante tanto em relação à desconfiança quanto em relação à confiança cega.

Alguém poderia pensar que uma confiança com sobrenome é, na realidade, uma desconfiança disfarçada. Costuma-se dizer que ou se confia ou não se confia, que não há meios-termos nem condições. A confiança, também se costuma dizer, rompe-se uma só vez. Essa é a lógica binária da confiança/desconfiança que queremos questionar, propondo o conceito de confiança no âmbito do reconhecimento mútuo, da responsabilidade e do cuidado. Trata-se de uma confiança ativa e comprometida consigo mesma e com as condições que a tornam possível. Por isso a chamo de confiança lúcida. (É verdade que conceitualmente poderíamos chamá-la simplesmente de confiança, confiança em seu sentido mais forte, já que estou convencido de que a confiança verdadeira é sempre lúcida. Mas, como se costuma confundir a confiança com a confiança cega, será necessário fazer a distinção.)

A confiança lúcida: uma proposta ética

A necessidade de uma confiança cujo paradigma seja diferente do da confiança cega nasce exatamente de sua crise. As propagandas alarmistas que levantam a bandeira definitiva da desconfiança têm um efeito tranquilizador a curto prazo, mas a médio e longo prazo são tremendamente destrutivas, angustiantes, cancerígenas. Nenhum projeto, empresa ou país, nenhuma família ou relação de amor ou de amizade pode sobreviver na desconfiança. Até a identidade de uma pessoa se desintegra na loucura se ela não é capaz de reconstruir a sua confiança em si mesma.

Ora, tampouco se pode viver na cegueira tanto prática quanto emocional da confiança cega. As relações e os projetos também fracassam na confiança cega, já que as pessoas cegadas não podem contar verdadeiramente com os outros, pois não são capazes de vê-los, e ninguém se vê a si mesmo senão através do outro, que faz de espelho. Uma pessoa que confia cegamente em si mesma também não pode ver-se, conhecer-se, sentir os seus limites e possibilidades.

A confiança lúcida é a confiança que se compromete consigo mesma, porque sabe que não pode constituir-se como um lugar de certezas absolutas nem como um valor que se ganha de uma vez por todas. É, antes, um desafio constante que requer a coragem necessária para voltar sempre a construir e reconstruir as condições da própria confiança. Isso porque a confiança não é uma conclusão racional, mas um vínculo afetivo dinâmico que sabe e sente, se sabe e se sente a partir de si mesmo.

A confiança lúcida não é um modo natural de relacionar-se com os outros nem consigo mesmo; trata-se de um modelo ético que proponho criar e forjar constantemente, se se quer estabelecer relações humanas e institucionais integradoras, marcadas pelo cuidado e pelo respeito ativos e comprometidas com eles.

A proposta ética da confiança lúcida não repousa em nenhuma ideologia. Nem política, nem religiosa, nem científica. É uma ética que surge do simples fato de estar sendo no mundo, mundo compartilhado, isto é, em um espaço junto a outros e a partir deles.

A confiança lúcida escapa da alternativa ocidental entre o individualismo atômico do capitalismo competitivo e a mística fusional comunitarista do socialismo clássico. Ambas as possibilidades destroem o espaço necessário que separa e une os homens. O individualismo atômico destrói o espaço na lonjura infinita da desconfiança, e o comunitarismo o destrói a partir da ilusão da fusão que cega.

Desconfiança e confiança cega destroem o espaço necessário que constitui e sustenta a confiança lúcida. A confiança lúcida repousa sobre uma ética do espaço de luz que une e separa ao mesmo tempo, criando a justa distância que permite ver sem fundir-se, e assim respeitar-se mutuamente, reconhecer-se sem se perder de vista, seja na lonjura, seja na proximidade.

Confiança cega

Destrói o espaço a partir da ilusão da fusão. Não vê o outro nem pode ver a si mesma.

Confiança lúcida

Um espaço de luz que une e separa ao mesmo tempo: a justa distância para ver sem fundir-se, respeitar-se e reconhecer-se.

Desconfiança

Destrói o espaço na lonjura infinita. Nenhum projeto nem relação sobrevive nela.

Desconfiança e confiança cega destroem o espaço que sustenta a confiança lúcida.

A confiança lúcida é ética no sentido mais próprio da palavra ética. Ética vem da palavra grega éthos, que significou, em um primeiro momento, espaço, hábitat. E todo espaço existe graças aos limites que estabelece, reconhece e respeita. Nesse sentido, a confiança é ética, mas não ideológica nem política nem religiosa; é uma ética que surge do próprio encontrar-se no mundo junto a outros. Esse encontrar-se é um sentir e sentir-se, pensar e posicionar-se de maneira concreta, espacial. Por isso a ética torna conscientes os limites entre os quais se sente, explicita-os, percorre-os, encontra-se a si mesma neles, respeita-os para poder reconhecer-se em outro e reconhecer outros e, a partir daí, projetar concretamente a própria vida.

Confiança cega: pura cegueira

Quando se fala de confiança, geralmente se fala de confiança cega, e isso é um erro importante. A confiança cega aproxima-se mais da desconfiança e do medo que da confiança propriamente dita ou, ao menos, da confiança lúcida. A confiança cega é um tipo de desconfiança, pois não se atreve a ver nem a pedir que os limites e as condições se façam presentes; não se atreve a exigir respeito e cuidado na relação. O medo e a desconfiança no outro, em si mesmo e no mundo impulsionam a estabelecer relações de confiança cega, sob a ilusão da segurança total, das certezas absolutas e da invulnerabilidade. Mas, na realidade, essas ilusões são o outro lado da moeda do medo e da desconfiança. A confiança cega é pura cegueira: impossibilidade de ver, de escutar, de sentir e respeitar limites, papéis, espaços de intimidade, espaços exclusivos. E, quando não há limites claros, os papéis podem facilmente ser confundidos, trocados, diluídos, isto é, podem per-verter-se.

A confiança cega e a desconfiança não se opõem, mas se complementam em sua violência. São violentas porque não consideram o outro como verdadeiramente outro nem consideram o si mesmo como um ser digno, livre e capaz de ver o outro, respeitando e fazendo respeitar os limites necessários para ver e para deixar-se ver. A confiança cega é uma maneira muito clara e comum de autoagressão, o que é tão inaceitável quanto a agressão a outros.

A confiança jamais pode ser cega, já que só há confiança no contexto de uma relação com outro, isto é, com alguém que é reconhecido como digno de confiança. Até no caso da confiança institucional ou da confiança na política: ainda que não se conheçam pessoalmente os que oferecem confiança (ou a pedem), há um espaço de reconhecimento onde essa confiança está em jogo, como os meios de comunicação, a internet ou as redes sociais (novas manifestações da ágora grega).

Quando alguém pede ou exige confiança cega, o que está propondo, na realidade, é cegueira e um espaço propício para algum tipo de abuso. Mesmo que esse abuso nunca chegue a ser cometido concretamente, o simples fato de pedir ou exigir confiança cega já é um tipo de abuso, já que limita a autonomia e a liberdade para ver e inibe as possibilidades de autocuidado.

A confiança cega é confiança passiva. É a simples espera de que o outro não cause dano, ou ao menos não o cause voluntariamente, e isso não é estritamente uma relação, mas uma expectativa quase anônima, jogo de probabilidades, estatística. Por isso afirmo que, se é cega, não é verdadeiramente confiança. A confiança é ativa porque é uma relação. Não repousa em uma relação, mas é ela mesma uma relação, isto é, um contexto ou espaço de luz que permite o encontro e o reconhecimento mútuos.

A confiança lúcida é um espaço

A confiança lúcida não é uma característica de algumas relações nem o seu resultado, mas um espaço que torna possível uma relação de confiança. Esse espaço, para ser lúcido, é espaço de luz (lucidez vem de lux: luz). Então, o estabelecimento de relações de confiança lúcida começa com a criação e a defesa de espaços de luz entre as pessoas. Ora, a imagem de um espaço de luz é a possibilidade de ver e deixar-se ver, de reconhecer e ser reconhecido.

A confiança lúcida também é um espaço propício à escuta ativa. Há uma espécie de silêncio da luz no espaço de lucidez que permite escutar o outro e ser escutado. Assim como o silêncio é condição e possibilidade para que a voz de alguém seja escutada, assim também a luz é condição e possibilidade para que as formas apareçam e sejam reconhecidas.

O espaço de lucidez de que as relações precisam para ser relações de confiança é um espaço que pergunta, questiona, convida a responder, a prestar contas de si mesmo diante do outro, a constituir-se em responsável. A luz e o silêncio do espaço da confiança lúcida impelem a responder pelo outro e por si mesmo, a ser responsável.

Ora, todo espaço é criado por seus limites. Sem limites não há espaço, mas caos e indeterminação, ambiguidade e confusão. Os limites marcam o espaço necessário entre as pessoas para que possam reconhecer-se e respeitar-se, cuidar-se e comprometer-se. Esses limites se legitimam ao sentir o espaço natural que somos: uma corporalidade viva que se encontra e se orienta no sentir e no pensar. No corpo sentimos o mundo e sentimos a nós mesmos e, o mais importante, por meio dele buscamos e encontramos sentido para a vida. Mas não me refiro a uma sensualidade pulsional fácil e volátil que gera, afinal, dissociação e angústia, e sim ao sentido, à consonância do meu horizonte com o horizonte do outro a partir dessa força lúcida que o corpo vivido conscientemente constitui.

Os limites do espaço de lucidez surgem no encontro com o outro, inclusive os limites para serem transgredidos. Sem outro que me mostre limites, eu mesmo me desintegro, me perco, seja no caos da cegueira, seja no caos da desconfiança. O outro marca limites e, a partir de sua presença, reconheço os meus próprios limites. Insisto: mesmo que estes sejam transgredidos, devem ter sido estabelecidos na presença do encontro. É por isso que os limites não são uma conclusão racional, mas se revelam nos afetos, sobretudo durante a primeira infância. Ainda que na maturidade sejam racionalizados, sempre terão um caráter afetivo impossível de reduzir a um espaço geométrico, lógico, racional. Até um bebê de poucos meses toma a sua distância para ver e sentir o que acontece ao seu redor e assim poder orientar-se a partir da pessoa afetivamente mais significativa para ele. Essa relação, relação por excelência, relação paradigmática de toda outra relação, fonte do que alguns chamam de apego, é uma relação de reconhecimento, não de fusão cega e tampouco de conhecimento cognitivo. É uma relação de reconhecimento afetivo.

Ora, para que haja reconhecimento é fundamental o espaço, isto é, o silêncio, a luz, a distância e os limites que permitem escutar, ver, respeitar e cuidar do outro. É necessário esclarecer que os limites não são os limites violentos que impedem a proximidade do amor, do apego, da intimidade, mas exatamente o contrário: só a distância e os limites claros tornam possível que se estabeleça uma relação com outro e que nessa relação eu vá me configurando como um eu livre e disposto a relacionar-me com outros, a conhecer, escutar, respeitar, amar outros diferentes de mim. Tanto a solidão absoluta quanto a ilusão da fusão com o outro eliminam essa possibilidade.

Confiança e reconhecimento

O reconhecimento mútuo está na origem de uma comunidade humana democrática, mas sobretudo está na base da integração da própria personalidade, pois esta surge da aceitação e da valorização que o outro faz de mim mesmo, outro como eu. Eu não sou capaz de sentir-me eu mesmo, na minha própria pele, individualidade e diferença, na eterna e total solidão; preciso que outro me veja, me nomeie, me reconheça para assim constituir-me como eu e sentir-me digno de mim mesmo. Essa é a base da teoria do reconhecimento que estendo à confiança lúcida, pois só pode haver reconhecimento no contexto da confiança. Mais ainda: a confiança não é uma simples condição do reconhecimento, mas o seu equivalente.

Para que haja reconhecimento é necessário um espaço e uma distância que permitam ver para reconhecer. Sem espaço não há diferença e sem diferença não há individualidade. É por essa razão que o espaço deve ser defendido. Não só a partir de um imperativo moral de respeito ou cuidado, mas porque o espaço é necessário para que o reconhecimento tenha lugar e, assim, uma identidade pessoal, um eu.

A confiança cega elimina a distância, o espaço e os limites que permitem ver e reconhecer, porque as partes (ou uma delas) se aproximam demais, atropelam-se, cegam-se. Sem espaço e limites claros, não há reconhecimento possível, já que não há luz para ver e reconhecer. Tampouco há confiança lúcida possível. Na desconfiança o espaço se torna infinito e não consigo reconhecer o outro nem reconhecer-me nele, pois ele escapa na lonjura ou na invisibilidade. A confiança lúcida requer um espaço justo, espaço de luz que torne possível o reconhecimento mútuo. Espaço sempre frágil e, por isso mesmo, um espaço de cuidado.

A distância entre duas pessoas Três pares de círculos. Na confiança cega, os círculos se sobrepõem: não há distância nem limites. Na confiança lúcida, uma faixa de luz os separa: um espaço justo. Na desconfiança, estão nos extremos, unidos por uma linha pontilhada: o espaço se torna infinito. Confiança cega Sem distância nem limites Confiança lúcida Um espaço justo, de luz Desconfiança O espaço se torna infinito
Sem espaço não há luz para ver e reconhecer o outro; na lonjura infinita, tampouco.

A confiança lúcida permite ao outro ser ele mesmo e o potencializa para isso, compromete-se com o seu ser sem tentar modificá-lo, substituí-lo, manipulá-lo para que seja o que eu quero que seja, nem afogá-lo na paranoia do abandono, na violência do abuso ou do medo. A confiança lúcida defende o espaço para que o outro seja realmente outro e seja reconhecido como tal.

Que haja luz entre as pessoas significa também que a relação e as suas dinâmicas são transparentes e podem ser relatadas a outros sem produzir indignação, pena nem escândalo. Se na confiança se guarda o segredo do outro e de si mesmo, é por respeito, cuidado e compromisso, e não por medo nem manipulação. Por isso é necessário que a lucidez da confiança tome constantemente distância de si mesma a partir de seu espaço e a submeta a um olhar crítico, como se se tratasse de outros. Essa distância, que não é outra coisa senão o espaço próprio da lucidez, permite tomar partido, discernir a realidade, encontrar-se no mundo e orientar-se. Por isso a confiança lúcida não só deixa espaço, mas precisa, requer a crítica e a autocrítica constantes. A distância e a crítica constituem a força de seu compromisso lúcido.

A confiança é lúcida enquanto existir e for respeitado o espaço que a possibilita. A ruptura desse espaço é a ruptura das condições da confiança. Esse espaço se traduz também em papéis e lugares específicos a partir dos quais se posicionar no espaço: pai, mãe, filho, professor, estudante, primo, sacerdote, político. A luz, a lucidez, é necessária para ver, reconhecer, respeitar e defender os papéis e os espaços de cada um. A ruptura do espaço, dos limites e dos papéis se chama perversão, justamente porque per-verte, revira os limites. A confiança e a desconfiança cegas, assim como o abuso, são maneiras de romper o espaço de reconhecimento mútuo, o espaço da confiança lúcida.

Confiança lúcida e corporalidade viva

Há uma sabedoria do corpo que é necessário recuperar para construir relações baseadas na confiança lúcida. É que o corpo é uma força lúcida que nos orienta no mundo entre as pessoas e as coisas; tem o seu espaço, os seus limites físicos e não físicos igualmente claros. O corpo possui uma sabedoria própria porque sente, não porque calcula. Por meio do corpo nos orientamos no mundo porque sentimos a nós mesmos nele e porque sentimos o próprio mundo por meio do nosso corpo. Por meio do corpo nos situamos, encontramos a nós mesmos no mundo. Por isso têm tanto sentido essas estranhas perguntas cotidianas: “Como se encontra?” ou “Já se encontrou no novo trabalho?” Encontrar-se é uma maneira de sentir-se no mundo, e esse sentir tem uma sabedoria que é preciso escutar. O problema é que estamos mais acostumados a validar só o que é calculável, o que pode ser respaldado com argumentos de custos e benefícios.

Há uma triste ilusão segundo a qual tudo, absolutamente tudo, pode entrar nessa lógica econômica e ser medido e analisado a partir do cálculo de custos e benefícios, como se a vida fosse um projeto financeiro ou imobiliário. Felizmente não é assim. Salvo para alguns psicóticos obsessivos, o centro das decisões transcende essa lógica, embora nem sempre saibamos como nem por quê. E, como não sabemos, a lógica do cálculo tenta substituir e ocultar a lógica do sentido, porque o sentido “se sente”, não é comprovável nem demonstrável. As decisões mais sãs e integradoras geralmente são tomadas não porque convenham ou produzam mais benefícios que custos, mas porque têm sentido para a vida.

O problema é que o sentido é algo que se sente, e quem o sente é o eu integrado, corpo e alma, e não um eu dissociado, desdobrado, submerso em uma lógica puramente econômica. A nossa educação ignora, despreza ou desconfia dessa integração do pensar e do sentir, e essa desconfiança nos causou um dano importante. A confiança, a amizade, o amor, a alegria não são decisões na lógica pura do cálculo de benefícios, mas surgem da integração do pensar e do sentir, da mente e do corpo, e a refletem. É necessário, urgente, recuperar a sabedoria orientadora do corpo, voltar a escutar aquele que escuta o mundo, aquele em que me encontro e me oriento, confio, sinto, temo e desconfio.

A confiança lúcida integra a sabedoria do corpo. Como essa luz natural da razão de que falavam os medievais (lumen naturalis rationis), mas integrando-se com o outro sentido divino que é o corpo. O corpo experimenta e manifesta confiança e medo; sabe quando um toque é amistoso, filial, amoroso ou sensual. O corpo reconhece os olhares em seu olhar, os silêncios, os gestos, o respeito dos limites e as suas transgressões e ruptura. O corpo é capaz de convidar outro a entrar em seu espaço íntimo e também de expulsá-lo. Mas para isso é necessário aprender a sentir, identificar o que sentimos, reconhecê-lo e orientar-nos lucidamente a partir desse sentir. Mas insisto: não fomos educados para integrar a sabedoria do corpo, e sim, ao contrário, para suspeitar dela, desprezá-la, negá-la ou cultivá-la instrumentalmente. Sentir, pôr nome no que se sente, analisar respeitosamente esse próprio sentir, tomar distância e posicionar-se a partir desse sentir é um trabalho integrador, é uma maneira de romper com a dissociação moderna na qual, sim, fomos educados e de recuperar a ferramenta mais natural que temos para discernir, orientar-nos e decidir.

Quero insistir na distância que é necessário tomar em relação ao outro para poder reconhecer, mas também é preciso criar um espaço em relação a si mesmo e ao próprio sentir, já que não se trata de seguir os impulsos corporais de cada momento, mas de orientar-se a partir desse sentir. Para a orientação requer-se a distância, o questionamento, a integração e o posicionamento, o reconhecimento das referências significativas e a ação. Sentir-se a si mesmo e sentir o outro, tomar distância desse mesmo sentir para discernir, tomar posição e assim agir no mundo.

  1. SentirSentir-se a si mesmo e sentir o outro
  2. Tomar distânciaDo próprio sentir, para discernir
  3. AgirTomar posição e agir no mundo
Orientar-se a partir do sentir, sem seguir os impulsos de cada momento.

Confiança e fragilidade

Precisamos da confiança porque somos frágeis, vulneráveis, porque estamos expostos a ser feridos ou mortos pelo simples fato de estarmos vivos. Podemos ser enganados, lesados, manipulados, abandonados, abusados pelo simples fato de entrar em contato com outros seres humanos. Precisamos relacionar-nos com outros para chegar a ser seres humanos, mas esse relacionar-nos constitui a possibilidade da traição. Para isso criamos a confiança.

Somos feitos de fragilidade e por isso sempre vamos precisar confiar. Se fôssemos todo-poderosos, não precisaríamos confiar em ninguém: tudo estaria resolvido. A confiança é necessária ali onde há incertezas, fragilidade, risco, vulnerabilidade, isto é, onde há vida. Podemos confiar ou não confiar, mas não podemos deixar de ser vulneráveis. A fragilidade é o material com que fomos forjados como seres humanos, e é preciso enfrentar essa fragilidade de alguma maneira. Uma maneira de enfrentá-la é desconfiando de tudo e de todos: fechando as possibilidades de que outros firam essa vulnerabilidade ou profetizando esse dano.

Se desconfio de tudo e de todos e me asseguro de que todos me ferirão, então elimino a incerteza — e a liberdade — da confiança. Quando quem causa dano é alguém em quem se confiava, o dano é ainda maior do que se o comete alguém de quem se desconfiava. Pode até ser mais dolorosa a traição da confiança e o caos que essa traição provoca do que o dano produzido, como se a confiança fosse uma realidade em si.

Com efeito, a confiança é uma realidade em si, quase palpável. Atrevo-me a dizer que a confiança tem mais realidade, mais substância e peso que muitas coisas físicas com que nos deparamos cotidianamente, ainda que seja mais difícil de definir. A confiança é como o clima, o silêncio e a luz: é dada como óbvia e natural e é difícil de olhar, escutar ou analisar diretamente. A luz não se olha diretamente, assim como o silêncio não se escuta. São condições para escutar e para olhar. Por isso é uma boa imagem para falar da confiança. É difícil de definir e de pensar diretamente; no entanto, a sua ausência é contundente e caótica e, por fim, muito violenta.

A desconfiança e a violência, mudas e cegas, são uma maneira de enfrentar a vulnerabilidade, embora negando-a. Transformando o medo e a angústia que a fragilidade provoca na ira que a desconfiança provoca e no desejo de que o outro desapareça, porque assim desapareceria a vulnerabilidade própria que fica exposta diante da presença do outro. Trata-se de uma fantasia tão comum quanto destrutiva. A presença de outra pessoa sempre me torna mais evidente a fragilidade da vida, a fragilidade da minha própria vida como a dos outros. Então, posso chegar a querer que a outra pessoa desapareça, que não se mostre ou que não me lance em rosto a fragilidade. Mas como fazer uma pessoa desaparecer sem exercer a violência direta e explicitamente?

Uma maneira de fazer desaparecer a outra pessoa é objetivando-a, considerando-a como um objeto, uma coisa, uma estatística, pura força produtiva. Essas são formas de violência e nem sempre são percebidas como tal. A violência física ou psicológica é a mais fácil de notar. Quando se trata uma pessoa como uma coisa, ainda que sutilmente, há um tipo de violência, muito destrutiva e angustiante, mas que poucas vezes é percebida como tal.

Outra maneira de enfrentar a fragilidade consubstancial da vida é a confiança. Mas, mais uma vez, não pode ser por meio da confiança cega, que é outra maneira de não ver, de desaparecer ou de fazer desaparecer o outro, eliminando a distância absolutamente necessária para o reconhecimento, o respeito mútuo. A confiança lúcida não é violenta, porque não perde o outro de vista, mas não para controlá-lo ou ameaçá-lo, e sim para lembrar-lhe a fragilidade exposta na relação, porque a presença da vulnerabilidade não deveria empurrar ao dano em primeiro lugar, mas à responsabilidade, ao compromisso e ao cuidado de si mesmo e do outro.

A confiança lúcida, quando é explicitada, tornada presente, nomeada, é um chamado ao cuidado, ao compromisso e à responsabilidade pelo outro a partir justamente da fragilidade, e não da cegueira, da violência ou da onipotência. A lucidez exige tornar presente e respeitar o espaço a partir de seus limites, lançar luz e esclarecer ambiguidades.

A confiança é uma maneira de lidar com a vulnerabilidade, porque o oposto da vulnerabilidade não é, como se poderia pensar, a invulnerabilidade, mas o cuidado, isto é, a responsabilidade e o compromisso.

O oposto da vulnerabilidade não é a invulnerabilidade, mas o cuidado.

Confiança e promessa

Por trás da confiança, e quase sustentando-a, há uma promessa, ainda que não seja declarada nem explicitada, de quem recebe a confiança. A origem da palavra confiança (fides) tem a ver com um pedido de não causar dano. O mais frágil pede fides ao mais poderoso para que o proteja, para que não lhe cause dano, não abuse dele, isto é, confia nele e lhe pede poder confiar. Confiar, confiar-se ou confiar algo a alguém significa ter a esperança de que esse alguém não causará dano, mas cuidará, respeitará, protegerá o que lhe foi confiado. Pode causar dano, pode trair a confiança que foi depositada nele, mas quem confia espera que não o fará. Por quê? Porque há algo na confiança que cria uma promessa de proteção, promessa que, evidentemente, pode ser quebrada.

Façamos o caminho inverso: por trás de toda promessa está implícita a confiança, porque uma promessa sempre indica uma vontade de cumprir a palavra. Supõe até a capacidade de confiar na palavra e em que essa palavra continuará sendo a mesma. Por isso confiar é, para alguns, uma maneira de dar certa estabilidade e sentido a um futuro sempre incerto, sempre imprevisível. A promessa também incursiona no futuro e procura dar-lhe estabilidade, sentido, confiança.

Quem recebe a confiança deve tornar-se digno dessa confiança, e essa dignidade é dada pela promessa de cuidar e proteger. Pensemos sobretudo na idade em que nasce a confiança: a primeira infância. O rosto e a nua fragilidade do recém-nascido são um suave clamor de confiança. Essa fragilidade normalmente compromete o adulto no seu cuidado, na ternura, na criação. Essa criação pode ir formando e integrando a criança tanto na lucidez, na confiança lúcida, quanto na cegueira afetiva, isto é, na desproteção, na paranoia, na violência.

Por essa razão insisto na promessa do cuidado, no compromisso com o mais frágil. Essa promessa deve ser explicitada, deve tornar-se presente, já que, se a promessa se mantém sempre implícita, tende a ser esquecida, a descuidar-se, a des-responsabilizar-se. A confiança torna-se confiança lúcida quando é pronunciada como promessa, promessa de cuidado, isto é, compromisso.

Confiança, sexualidade e abuso

Nós, humanos, somos seres dispersos em milhares de dimensões, mas todas essas dimensões repousam em uma profunda unidade pessoal que, embora seja difícil de descrever diretamente, é radical. Essa unidade é dada a partir do nosso querer. É o nosso querer, a nossa afetividade projetada para o mundo, para os outros, para o futuro, para nós mesmos, que integra a razão e orienta a nossa existência, nos dá unidade e sentido. O querer nos dá até a força necessária para viver, para estar junto a outros, criar e procriar, iniciar projetos, decidir, lutar para continuar aquilo que começamos. Somos, de modo integrado, uma inteligência que sente e um sentido que pensa. Sentir sem pensar ou pensar sem sentir nos transforma em seres dissociados, “idiotas”, fragmentados, delirantes ou, simplesmente, desorientados. A nossa orientação existencial mais profunda dá-se a partir dessa bússola secreta e misteriosa que está no centro da nossa afetividade, que é o nosso próprio centro.

É que, antes de sermos seres estrita e puramente racionais e calculadores, somos seres afetivos: sentimos o mundo antes mesmo de pensá-lo, e não se trata de um defeito nem de um impedimento para o pensamento claro e distinto, como pensava a psicologia clássica. Foi uma descoberta bastante revolucionária do século XX, e ainda não terminamos de compreender todas as suas consequências. Neuropsiquiatras, filósofos, biólogos, educadores estão apenas começando a compreender as consequências dessa realidade, que estava oculta pela desconfiança que se tinha dos afetos, dos sentimentos, do corpo. O Ocidente forjou grande parte de seu poder científico, militar e industrial considerando o corpo como uma simples ferramenta do ser humano, uma maquinaria, uma coisa entre as coisas, da qual é preciso desconfiar, que é preciso temer e dominar. O ser humano tinha de ser pura mente, espírito ou alma, e o seu corpo, um instrumento para conhecer (ciência), trabalhar (indústria) ou submeter (religião).

Pouco a pouco, sobretudo vivendo as consequências nefastas da dissociação corpo-alma, e ajudados por alguns filósofos e cientistas, nós, seres humanos, fomos nos dando conta de que somos seres encarnados e de que é encarnados que nos encontramos no mundo e nos orientamos nele. O mundo nos afeta, e é o afeto que nos guia entre os milhares e milhares de estímulos com que nos deparamos cotidianamente. No fundo, não é a razão nem o cálculo, nem tampouco o instinto de sobrevivência, o que nos orienta em primeiro lugar, mas o afeto.

É assim que escolhemos amigos, par, profissão, trabalho, vocação, projetos, argumentos; é o afeto que nos faz lutar pelo que queremos, até o sacrifício, contra todo cálculo, contra as razões e até contra o instinto de sobrevivência. Por isso a simples consideração dos afetos e das emoções, a maneira integrada de tomar decisões, é uma potente refutação da triste crença economicista que diz que tudo é mero cálculo de custos e benefícios. Pesar custos, oportunidades e benefícios em toda decisão é importante, mas o determinante é o sentido das decisões, isto é, aquilo que integra o nosso pensar e a nossa afetividade.

Ora, a afetividade é sempre uma modalidade da nossa sexualidade. O centro da nossa existência é afetivo e sexuado. Não somos sexuados porque queremos e amamos, mas amamos e queremos porque somos sexuados no sentido mais amplo: sentimos os outros e podemos comprometer-nos com eles na criação de projetos e ações, novos mundos, novos seres humanos. Esse poder amar, querer e comprometer-nos é a maneira como nos orientamos no mundo e na existência. O erótico é só uma manifestação da sexualidade: a sexualidade é muito mais ampla. Somos seres inteiramente sexuados; a nossa identidade é sexuada. É por isso que a sexualidade é tão protegida: física e emocionalmente, ela está posta em um lugar secreto, íntimo, próprio. O centro da sexualidade é o próprio lugar sacro, essência escondida em si mesmo, escondida e secreta até para si mesmo. Esse é o centro da nossa orientação, e por isso é tão frágil: é a manifestação mais radical da vulnerabilidade. Por esse centro nos orientamos secretamente para o que nos agrada, nos emociona, nos dá sentido, o que amamos e nos afeta. Por isso se protege tanto a sexualidade, até em suas formas mais absurdas. (Há pessoas que ainda chamam os genitais de “vergonhas”.) Mas esse centro também é transcendência. É o lugar da transcendência mais radical, já que ali se produz o material vital para criar novas vidas, e, no caso da mulher, dali brota ou ali chega esse íntimo estrangeiro, que é totalmente outro, infundindo respeito e cuidado, mas ao mesmo tempo totalmente próprio, despertando o sentimento de amor mais profundo que se pode chegar a experimentar: o filho. O filho chega do centro da existência transformando esse centro, pura e secreta intimidade, em transcendência, ponte.

Esse centro e transcendência é compartilhado delicada e cuidadosamente em momentos de suma confiança, respeito e liberdade. Só assim, nesse espaço de confiança, de confiança lúcida, de respeito, delicadeza, paixão e entrega, a sexualidade compartilhada é fecunda e faz crescer e aprofundar a nossa humanidade. Do contrário, esse centro da identidade própria mantém-se escondido e protegido dentro de limites fortes. No entanto, o corpo também pode fecundar, fazer chegar e receber outro sem jamais integrar ou compartilhar esse centro da intimidade, segredo último do eu, dissociando-se de si mesmo. Pode-se compartilhar a sexualidade sem compartilhar o centro transcendente da intimidade; podem-se transgredir os limites, romper o espaço, eliminar a luz da confiança, da confiança lúcida; pode-se ferir profundamente o próprio centro da existência, a bússola pessoal afetiva que torna possível a confiança. Essa possibilidade de dano, de dano profundo a si mesmo e a outros, cria a urgência infinita do cuidado e da lucidez.

É por isso que o abuso sexual é uma agressão radicalmente diferente de todas as outras. Não é a propriedade, um pertence, o dinheiro nem a liberdade o que é violentado, transgredido, ferido. Tampouco se pode reduzir ao físico do corpo o que é agredido no abuso sexual. O abuso sexual é uma intromissão no próprio centro da corporalidade e da existência, esse centro que marca, condiciona, possibilita e orienta o nosso estar no mundo junto a outros.

O abuso sexual ocorre quando alguém, pela força ou, de forma ainda mais violenta, pelo engano, pela manipulação, pela autoridade ou aproveitando-se da confiança, ultrapassa esses limites e entra na esfera do mais íntimo e frágil da própria identidade. Essa ultrapassagem constitui uma fratura muito profunda, porque chega ao mais fundo de cada um, à identidade, à capacidade de discernir a realidade e de orientar-se no mundo. Quando o abuso ocorre em idade precoce ou quando o abusador tem algum tipo de poder ou autoridade sobre a pessoa de quem abusa (familiar, laboral, religioso, militar), a fratura pode ser ainda maior. A vítima confiava no abusador, e o abusador aproveitou essa confiança, utilizou-a para sentir prazer, transformou a sua vítima em um objeto de seu prazer, coisificou-a. Já há casos demais de suicídios ligados silenciosamente a questões de abuso, de depressões, de impossibilidade de confiar ou de estabelecer vínculos afetivos sãos, de rupturas psicológicas, até de dificuldade para discernir a realidade e orientar-se.

Há muito pouco tempo começamos a nos dar conta, como sociedade, da gravidade do abuso sexual: agressão profunda, capaz de confundir os limites entre vítima e agressor, de roubar da vítima até o seu direito de ser vítima. Há culturas e até religiões em que ainda não se toma plena consciência da gravidade do abuso sexual e, no entanto, o dano, o trauma, a dissociação estão ali, são patentes. A porcentagem da sociedade que foi vítima de abuso é estarrecedora, e terapeutas, psicólogos, médicos, advogados e juízes geralmente não sabem como enfrentá-lo. As consequências são muito profundas, e a recuperação é uma luta que dura anos. A luta principal é para voltar a confiar. O abuso sexual destrói a confiança nos outros, já que a grande maioria ocorre no ambiente familiar ou de conhecidos próximos da família, mas também destrói a confiança em si mesmo, já que produz uma grande confusão de limites e de papéis, a ponto de quem foi vítima poder chegar a sentir-se cúmplice de sua própria ferida. Mas também destrói a confiança nas instituições, já que estas nem sempre são capazes, podem ou querem proteger, escutar ou fazer justiça. A ruptura da confiança é a ruptura da própria humanidade, já que, como vimos mais acima, sem confiança não há reconhecimento mútuo.

O abuso sexual destrói a confiança

  • Nos outros. A grande maioria ocorre no ambiente familiar ou de conhecidos próximos da família.
  • Em si mesmo. Produz uma grande confusão de limites e de papéis.
  • Nas instituições. Nem sempre são capazes, podem ou querem proteger, escutar ou fazer justiça.
A luta principal na recuperação é para voltar a confiar.

Daqui nasce o desafio de construir uma confiança que seja fator de proteção e não de vulnerabilidade. As bandeiras contra a confiança por motivos de abuso, de qualquer tipo de abuso, são a confirmação mesma da condenação que o abusador impõe à sua vítima por meio do abuso: “não poderás voltar a confiar”. A confiança lúcida é a ruptura do abuso porque volta a desenhar os limites de si mesmo para criar um espaço de luz onde outro pode entrar, reconhecê-lo e ser reconhecido nesse espaço e com esses limites.

A confiança é teimosa e resiliente, e no milagre de sua resiliência adquire o da lucidez. Ao mesmo tempo, a confiança lúcida que sente, reconhece e respeita os limites de si mesmo nos limites do outro, e exige respeito pelos limites, pode ser formada, ensinada, transmitida no mesmo respeito, validação e consciência desses limites. Assim como o abuso às vezes pode ser viral, também a confiança lúcida, o compromisso e o cuidado podem sê-lo.

Bibliografia

Sustentando este livro, dialogando com ele e até questionando-o, há muitas obras e autores. Alguns os reconhecerão, mas evitei misturá-los ao texto para não sobrecarregar com citações e referências, já que não o considerei necessário. Cito a seguir algumas dessas obras e suas referências para quem quiser continuar o diálogo, rebater ou aprofundar.

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  • Trías, Eugenio, La política y su sombra, Anagrama, Barcelona, 2004.

Sobre esta edição. Versão web do livro Confianza lúcida, de José Andrés Murillo, publicado pela Uqbar Editores (Santiago do Chile, março de 2012; 110 páginas; projeto gráfico da capa de Caterina di Girolamo; diagramação de Salgó Ltda.), com as erratas corrigidas e gráficos novos que resumem o conteúdo. © José Andrés Murillo e Uqbar Editores, 2012. Publicado com autorização da Uqbar Editores. Baixar o PDF original (em espanhol)

Tradução da Fundación Para la Confianza. Em caso de divergência, prevalece a versão em espanhol. Versão em espanhol.