Capítulo 3 · 10 anos por um mundo sem abuso
Confiar é acompanhar
Capítulo 3. Os Grupos de Ayuda Mutua (grupos de ajuda mútua), o acompanhamento jurídico, as orientações psicológicas e a Línea Libre (linha de atendimento da Fundação), contados por quatro pessoas que passaram por eles.
Índice do livro
Uma pessoa que sofreu abuso, em grande parte dos casos, tende a vivê-lo na solidão. O isolamento torna-se um fator comum. Depois de tomar consciência do abuso, as vítimas costumam pensar que ninguém vai acreditar nelas nem compreendê-las, que ninguém vai lhes dar apoio. E quem cometeu o abuso procura gerar essa sensação na vítima para, assim, garantir a sua impunidade. Por essa razão o acompanhamento é fundamental no processo de cura, e exige um esforço adicional de quem o sofreu.
A seguir apresentamos quatro histórias de pessoas que conseguiram romper essa barreira e começar a acompanhar-se, em diferentes instâncias da Fundación para la Confianza.
- Grupos de Ayuda MutuaGrupos de cinco a dez pessoas, acompanhados por monitores profissionais. Não é uma terapia: é um espaço para comprovar que não se está sozinho.
- Acompanhamento jurídicoAdvogados e profissionais orientam, guiam e acompanham quem inicia ou quer iniciar um processo judicial.
- Orientações psicológicasProfissionais acompanham a revelação e o início de processos de reparação. Nenhum caso é igual a outro.
- Línea LibreCanal de atendimento psicológico gratuito, confidencial e a distância para crianças e adolescentes.
Grupos de Ayuda Mutua (GAMU)
Os Grupos de Ayuda Mutua (GAMU, grupos de ajuda mútua) são uma instância de acompanhamento que a Fundación para la Confianza começou a desenvolver há vários anos. A sua dinâmica consiste em reunir grupos de cinco a dez pessoas que, acompanhadas por monitores profissionais, podem compartilhar e reconstruir experiências, reconhecendo-se nos outros. Não é uma terapia, mas sim um espaço em que vítimas diretas ou secundárias de abuso podem experimentar de forma concreta que não estão sozinhas.
Cristóbal
“Acabei de ver uma funa contra o meu professor de educação física por estupro em 2003, o mesmo que abusou de mim durante anos entre 2006-2008, sabe-se lá quantas vítimas mais existem... VAI CAIR!”
Mensagem publicada no Twitter
Foi uma mensagem breve, mas poderosa. Com essas palavras Cristóbal Saavedra, hoje com 26 anos, compartilhou no Twitter uma acusação contra a pessoa que, na sua infância, tinha abusado dele.
Não lembra muito bem onde estava nem o que estava fazendo, mas lembra o que sentiu: “fiquei gelado, fiquei mal. Eu não esperava, achava que era um dos primeiros a ter sofrido abuso desse cara, e foi pesado descobrir que havia muito mais gente, que havia outra pessoa que tinha vivido isso muito antes (em outra escola e mais de dez anos antes), e foi demais, muito forte, chocante. Fiquei supernervoso e tive essa primeira reação de compartilhar a publicação, compartilhar nas minhas redes, era como se eu tivesse alguma coisa na barriga, uma raiva muito grande”.
Desde 2015, ano em que começou a se dar conta, no seu íntimo, do que lhe tinha acontecido, Cristóbal não tinha conversado com mais ninguém que tivesse passado por uma situação de abuso.
Sentir-se sozinho, no entanto, não durou para sempre. “Passei vários anos fingindo que não era comigo. Desde que percebi que o que tinha me acontecido era um abuso, pensei que aquilo realmente não tinha influído na minha vida, e disse a mim mesmo: ‘tanto faz, para que pedir ajuda’”, lembra.
“O tempo passava, vários anos, e cada vez eu começava a sentir mais nojo, remorso, culpa, muitas coisas que me deixavam superinstável. Comecei a desconfiar bastante das pessoas, e chegou um momento em que senti a necessidade de enfrentar isso, de pedir ajuda”, conta. Foi aí que soube da Fundación para la Confianza.
“Em 2018, com a ajuda de um amigo, decidi me aproximar da Fundação. A verdade é que fui sem nenhuma expectativa, só sentia muita necessidade de fazer alguma coisa a respeito”.
Com o mesmo amigo que lhe falou da Fundação, encontraram-se um dia à tarde para tomar um café, fumar um cigarro e conversar. Estava tranquilo, mas na expectativa. Caminharam até uma casa na Manuel Montt, onde a Fundação funcionou por vários anos até 2019: “batemos na porta, e uma moça nos recebeu, não tínhamos marcado hora nem nada, e na hora nos perguntaram se estávamos procurando alguém ou algo assim. Só conseguimos dizer que vínhamos buscar ajuda ou orientação, que tínhamos visto na página que dava para vir ou ligar, mas que tínhamos preferido vir”, lembra Cristóbal.
Depois de explicar que era sobrevivente de abuso, levaram-no para uma sala. Esperou um pouco e chegou o advogado da Fundação, com quem conversaram sobre possibilidades de ajuda e sobre o que podiam começar a fazer. “Eu me senti muito amparado, diferente de outros lugares onde as pessoas parece que não sabem lidar quando alguém traz temas desse tipo. Eu me senti muito acolhido e compreendido, e nessa mesma conversa foi a primeira vez que me falaram dos GAMU”. Cristóbal, a princípio, não confiou muito no que lhe propuseram. Hesitou, e aquilo lhe pareceu um pouco estranho.
Os GAMU (Grupos de Ayuda Mutua) são uma instância de acompanhamento oferecida pela Fundación para la Confianza na qual, por meio de sessões em grupo, vítimas diretas ou secundárias de abuso podem acompanhar-se e trabalhar juntas por meio da escuta, de dinâmicas e de trabalhos em grupo. Tudo isso acompanhado por pessoas que moderam, facilitam e têm experiência no trabalho com vítimas de abuso ou na área psicológica.
“Antes de me contarem eu não sabia nada. Imaginei um pouco como nas cenas de alcoólicos anônimos que se veem nos filmes, mas não sabia muito o que pensar. No começo hesitei um pouco. A ideia de estar com gente que eu não conhecia, com pessoas que eu sentia que iam me avaliar, me fez pensar: ‘quem são essas pessoas para me dizer se estou bem ou mal?’, era toda uma desconfiança minha”, lembra.
“O que acontece comigo é que sinto que se tende a normalizar as pessoas, e funciona uma espécie de poder invisível do que tem que ser normal, e isso me gerava desconfiança, mas pensei: tanto faz, vou, vou tentar”.
Não foi fácil no começo, é verdade. Como conta, na primeira vez que participou, sentiu-se estranho: “quando cheguei, lembro que fiquei observando todo mundo, eram três pessoas conduzindo, dois homens e uma mulher, e entre os participantes, que naquele momento éramos uns oito, havia pessoas bem jovens, eu, que tinha 23, acho que havia um rapaz de 20 ou 21, e também gente mais velha, com mais de 30, e havia até um senhor que já estava aposentado. Eram só pessoas que tinham vivido abusos quando crianças e, claro, cada uma com as suas histórias”.
“A primeira coisa foi basicamente nos apresentarmos um pouco, tentar ganhar confiança, e se cada um quisesse contar um pouco do seu caso podia fazê-lo, mas sem nenhuma pressão. Olhei bastante o rosto de todos, como para buscar semelhanças nas coisas que faziam ou contavam. Alguns tinham sofrido abuso durante muito tempo, como aconteceu comigo, outros uma vez só. Foi forte conhecer gente que, apesar disso, tinha formado uma família, que já tinha feito a sua vida. Lembro que havia três pessoas que tinham filhos”.
Depois dessa primeira vez, não faltou a nenhuma sessão. Algumas das pessoas que estiveram naquela ocasião nunca mais voltaram, mas Cristóbal continuou indo e, por quatro meses, foi se ajudando junto com outros. Para ele, esse lugar tornou-se sagrado.
“Me dava essa sensação de estar num espaço seguro, com pessoas que de uma forma ou de outra tinham vivido algo parecido comigo, que podiam me entender. De repente eu podia contar certos medos e havia gente que também os compartilhava e eram os mesmos que eu tinha. Medo de repetir a história, medo de se relacionar com as pessoas, foram essas coisas que me motivaram a continuar indo, era um lugar em que se ficava um pouco, e dava para ir e não dizer nada, simplesmente estar, e isso já bastava”.
Os GAMU, como explica Cristóbal, “nunca me foram apresentados como uma terapia, porque os monitores não eram terapeutas. Era um espaço complementar à terapia com um psicólogo, que comecei a fazer em paralelo, também graças à Fundação, mas esses grupos dão muitas ferramentas para entender que, de uma forma ou de outra, não se está sozinho”.
E, a partir daí, foi percebendo que esses espaços começaram a lhe dar um apoio que, até aquele momento, não tinha conseguido. “Ajuda muito conhecer a história de outras pessoas para perceber que a culpa não é sua. Também acho que são temas que precisam deixar de ser tabu, e é fundamental que comecemos a falar disso, sobretudo primeiro entre pessoas que vivemos isso. Então, embora não seja terapia, sinto que é uma ferramenta que pode ajudar as pessoas a se curar. A mim me ajudou bastante a me curar”.
“Comecei a me sentir mais tranquilo para falar disso, e muito mais capaz de conversar sobre o tema, de enfrentá-lo. À medida que ia aos GAMU também comecei a me abrir mais com a psicóloga, foi muito bom”.
Até esse ponto, embora Cristóbal tivesse começado a abrir o seu caso no plano pessoal, ainda não tinha tomado medidas judiciais. Precisava estar bem, e com as ferramentas necessárias para enfrentar um processo desse tipo. Finalmente, começou a fazê-lo com a ajuda de Arturo Greene, advogado da Fundação.
Durante 2019 teve de ir prestar declaração no Ministério Público (fiscalía) e, diante de um juiz, contar o que lhe tinha acontecido. Como lembra, foi um dos momentos mais duros, mas também libertadores. Depois disso “me afastei um pouco, pensei: pronto, declarei, a justiça vai ter que fazer a parte dela”.
Seguiu a sua vida, concentrou-se intensamente na sua carreira de fotógrafo, em tirar fotos, publicá-las e tentar viver delas.
No início de 2020, os fatos relacionados com o seu caso começaram a avançar muito mais rápido do que imaginava. Entrou em contato com outras vítimas do seu agressor, que sofreram abusos na sua escola alguns anos antes, e também depois dele. Uns aceitaram e entraram em contato com a Fundação, mas para outros foi mais difícil: “um dia um dos rapazes me ligou para me pedir perdão por ter me deixado na mão, porque umas semanas antes tinha parado de me responder, mas eu entendo, não é fácil enfrentar isso”.
Todo esse assunto explodiu nas redes sociais em abril. “Uma pessoa fez uma funa no Instagram contra o sujeito que tinha abusado de mim. Foi uma funa enorme, por coisas que tinham acontecido antes em outra escola, antes de mim, e estourou de um jeito impressionante, ficou superviral. Chegou até mim e eu publiquei no Twitter, também bombou por lá”.
“Quando li a funa, além da raiva, da tristeza e da dor que senti, tive a sensação de que conhecia essa pessoa, mas claramente não era assim. No dia seguinte nos falamos por telefone, e conversamos muito tempo. Sentíamos uma proximidade fortíssima com isso, e aí contei que estava entrando com uma queixa-crime. Publiquei o tuíte e apareceu muito mais gente para me dizer que também tinha vivido algo assim. Foi um alívio, sentir que não se está sozinho, até certo ponto eu também tinha questionado o que tinha me acontecido, ou o que estava fazendo. Eu dizia ‘para quê’, às vezes nem eu mesmo acreditava no que tinha me acontecido, e depois disso foi como: ‘cara, é verdade, ninguém pode me dizer que não’”.
A partir da funa, as pessoas que acusaram o agressor de Cristóbal passaram de uma só a nove.
“Com os rapazes com quem estamos movendo a queixa-crime fizemos um grupo no WhatsApp, e eu tive a ideia de nos reunirmos, de fazer uma espécie de GAMU, mas só deste caso. Ter feito isso antes, claro, me serviu para montar esse grupo, e nos ajudou muito, porque éramos muitas pessoas e porque, embora o rapaz que fez a funa não tivesse outra intenção além de desabafar, isso fez muita gente reviver esse caso na própria vida, e eles estavam destruídos”.
“Por causa disso apareceu gente com quem aconteceu a mesma coisa em 97. Dez anos antes de mim, já tinham sofrido abuso desse cara, então a coisa foi pesadíssima, e conseguimos criar um espaço de acolhimento, de apoio, que não fosse só ir falar do tema, mas um lugar onde se podia ficar tranquilo, falar se fosse preciso. Há pouco tempo nos reunimos, fizemos um encontro pelo Zoom e foi ótimo, ficamos umas três horas, falando bastante tempo do tema, mas depois começamos a falar de outras coisas, foi bom, então é isso, me ajudou ter ido ao GAMU, não sei se teria tido a ideia de reunir todo mundo se não tivesse tido essa experiência anterior”.
Atualmente, como conta, não falam muito por esse grupo, “mas quando é preciso falar do assunto, falamos. Um rapaz teve que prestar declaração virtualmente no Ministério Público, e lá estávamos todos dando apoio, ânimo, e depois ele falou e disse que tinha se sentido muito aliviado depois de falar. Foi ótimo, sabe, sobretudo para mim, que de certa forma tive que viver isso mais sozinho, ainda que com os meus amigos, a família e a Fundação, mas acho muito bom que haja um grupo de pessoas que estamos todas na mesma, buscando justiça, e até abril deste ano eu estava sozinho, então, sim, tem sido muito forte”
Acompanhamento jurídico
Iniciar um processo judicial, criminal, não é algo com que todas as pessoas estejam familiarizadas, ou que se vejam na necessidade de fazer. É normal que, diante de uma situação assim, não saibamos como funcionam as instituições, ou não saibamos o que significam alguns termos comuns para quem trabalha na justiça.
Para quem foi vítima de abuso sexual, que é um crime, iniciar um processo judicial pode ser parte do seu caminho de cura, de reparação. Por essa razão, pela necessidade e pela complexidade que algo assim representa, a Fundación para la Confianza desenhou um modelo destinado a orientar, guiar e acompanhar pessoas que tenham iniciado ou queiram começar um processo judicial. Esse modelo é composto por uma equipe de advogados e profissionais que ajudam a orientar as pessoas para a melhor opção de acompanhar o seu processo de reparação.
Cecilia*
* Os nomes deste depoimento foram modificados para proteger as pessoas envolvidas.
Há muitas formas pelas quais o DNA, e a estrutura do cromossomo, expressam a sua informação para o exterior: pela cor dos nossos olhos; do nosso cabelo; por algumas atitudes; formas de agir; ou formas de nos relacionarmos com o mundo. Algumas pessoas, é verdade, nunca chegam a conhecer em detalhe a sua informação genética, mas para outras ela se torna tão relevante e influi tanto que —em alguns casos— define a vida.
Para Nicolás, influiu muito.
Quando ele fez quatro anos, a sua mãe, Cecilia, foi informada de que o filho tinha nascido com uma síndrome, a de deleção do cromossomo 22q11.2. “Falta-lhe um alelo, um pedacinho de cromossomo, então falta-lhe informação genética. Nele isso se traduziu em problemas de motricidade, transtornos de linguagem, e ao nascer teve problemas cardíacos e síndrome brônquica recorrente. Por causa disso precisou de internações nos dois primeiros anos de vida. Depois disso não precisou de nenhuma medicação, até que o notamos um pouco ansioso, e o psiquiatra teve que começar a medicá-lo”, explica Cecilia.
Essa condição genética influiu não só pelo que se poderia notar à primeira vista, mas porque a sua capacidade de linguagem e as suas formas de se relacionar e de criar vínculos com os outros foram, em parte, afetadas por essa síndrome. Isso fez com que, por exemplo, Nicolás seja uma criança “sem papas na língua, que não guarda o que pensa. Há palavras que ele tem mais dificuldade de pronunciar, é evidente que tem dificuldade de se comunicar, e além disso tem pouco filtro social, e isso lhe gerou alguns conflitos”, explica a mãe.
No entanto, em certas situações esse traço ajudou Nicolás a expressar fatos que, para a grande maioria, são muito difíceis de pôr em palavras.
Quando Nicolás tinha doze anos, foi vítima de abuso por parte do tio, na sua casa. Um ano depois, três dias antes de completar treze anos, revelou-o. Foi também nesse momento que notaram que estava mais ansioso, e ele teve que começar a tomar medicamentos.
“Foi terrível, obviamente, mas me tranquiliza saber que Nicolás conseguiu falar tão rápido, menos de um ano depois. O depoimento dele foi um pouco confuso, mas ele falou, e sim, eu acredito absolutamente que ele revelou por isso, pelo pouco filtro que tem, esse aspecto jogou a favor dele”.
Embora a sua sinceridade tenha sido benéfica no início, depois começaria a trazer problemas.
Cecilia não esperou, e denunciou. Embora no começo a investigação tenha avançado normalmente, depois ficou estagnada. Houve uma troca de promotor (fiscal) e —para Cecilia— esse foi o começo de mais de um ano de espera, de insistir nos tribunais, de não se sentir ouvida, de sentir que o caso não avançava, e de se encontrar muito sozinha e com pouco apoio.
“Já tinha passado um ano desde que fiz a denúncia, e sinceramente não havia avanços. Para mim era muito importante continuar, não deixar para lá, porque eu sentia constantemente uma sensação de impunidade, e não podia simplesmente ficar com essa sensação, então eu procurava permanentemente formas de fazer o processo judicial continuar, mas nada funcionava”.
“Eu sentia e, além disso, sabia que, pela condição de deficiência de Nicolás, se tentava constantemente desacreditar o seu depoimento, sendo que, apesar de tudo, era bastante claro. Um pouco confuso com as datas, mas, no geral, ele expunha com muita clareza o que lhe aconteceu”.
E foi a espera que, em definitivo, fez com que a desmotivação e o sentimento de impunidade crescessem ainda mais.
Já tinha passado mais de um ano e, enquanto esse sentimento crescia em Cecilia, ela se lembrou da Fundação.
Cecilia é orientadora familiar e tem se dedicado a trabalhar em temas de regeneração urbana, com famílias de setores vulneráveis de Santiago. Uma das tarefas do seu trabalho é avaliar, constantemente, se as pessoas podem ou não ser beneficiárias de programas, ou se são ou não aptas para certos benefícios.
A primeira vez que lhe falaram da Fundação foi justamente quando começou a levar o caso à justiça e, infelizmente, pensou como pensaria no seu trabalho. “Eu tinha dúvidas, não sabia se podiam me atender, se eu era o foco de atendimento, porque —olha que boba— eu pensava que, como eu e o meu marido tínhamos um trabalho estável, não íamos ser o público-alvo, porque já tínhamos certas redes. Por muito tempo não tive coragem de ir, com medo de que não me ajudassem, até que um dia decidi ir porque sentia que precisava de apoio. Eu já tinha ido muitas vezes ao Ministério Público, tive experiências muito ruins, e estava muito desmotivada, porque não via avanço, e fui à Fundação, até pensando que iam me dizer que não, mas fui”.
Assim que chegou, percebeu que estava enganada. “Foi incrível desde o começo. Eu, desde o momento em que entrei no escritório, me senti superacolhida. Aconteceram coisas que eu não esperava, e essa visita terminou com o advogado da Fundação me propondo assumir o caso de Nicolás. Pela primeira vez senti que se punham no meu lugar, e por isso saí muito esperançosa”.
Depois dessa primeira experiência, entendeu que estava num lugar diferente e, sobretudo, num lugar certo, o melhor espaço a que poderia ter chegado. “Dava para notar muito que se importavam em que isso não ficasse impune, coisa que no Ministério Público tinha sido totalmente diferente. Não senti como um trâmite, não senti como mais um caso, eu realmente senti uma tranquilidade enorme, e pensava: poxa, por que não vim antes, por que demorei tanto para vir”, lembra Cecilia, entre risos.
“O que eu esperava —e desejava— era que esse sujeito fosse preso. Bom, depois comecei a entender que não ia ser possível. Mas eu queria que isso não caísse no esquecimento”, reflete.
O Ministério Público, até aquele momento, tinha lhe oferecido um procedimento abreviado (juicio abreviado), e Cecilia nunca gostou dessa ideia. Na Fundação, explicaram-lhe que na verdade era a melhor opção, porque assim Nicolás não ia ter que depor, “e isso de certa forma eu usei para me resignar, e para entender que é possível continuar avançando, mas o principal era não expor o meu filho”.
“Eu acho que graças à Fundação isso avançou, e avançou rápido. Entrei em contato com a Fundação e, algum tempo depois, conseguimos data para a audiência de formalização da investigação (formalización). Ali também me senti supersegura e acolhida pelo advogado. Ele esteve sempre muito atento e, sim, foi absolutamente dar celeridade a esse assunto, e acho que no fim se conseguiu o que se conseguiu graças ao trabalho da Fundação, porque provavelmente, se eu tivesse continuado só com a promotora, não teria avançado muito”.
No momento em que deu este depoimento, tinha passado uma semana da audiência do procedimento abreviado, em que se condenou a pessoa que abusou de Nicolás. E a emoção de Cecilia não precisava de explicação: o seu sorriso e o tom ao falar a deixavam perceber até através da tela.
“O que aconteceu no fim foi que deram cinco anos de liberdade vigiada intensiva, uma ordem de afastamento e de proibição de comunicação conosco. Vai ficar com uma anotação nos seus antecedentes criminais, o que implica um impedimento perpétuo de trabalhar com crianças e, por último, nunca mais vai poder exercer o seu direito de voto, o que para mim foi uma das decisões mais impressionantes, e me aliviou muito o sentimento de justiça de que eu precisava”, lembra Cecilia.
“Mesmo assim às vezes penso e digo: ‘poxa, por que ele não foi preso’, mas ao mesmo tempo estou satisfeita, porque todas essas medidas dão base e sustentação à acusação de Nicolás, porque se reconhece que aconteceu, e todos os argumentos que tentaram desacreditar o meu filho pela sua condição de deficiência acabaram não sendo suficientes para invalidar o seu depoimento”.
Finalmente, ainda que para a justiça (não para nós) a síndrome de Nicolás tenha sido tomada como uma dificuldade, a ele ajudou a iniciar processos. Acreditar e confiar nas pessoas, independentemente da sua condição, será sempre o melhor apoio para as vítimas, e uma arma potente contra o abuso.
“Acreditaram nele, validaram o que ele disse, e isso me deixou muito tranquila, orgulhosa e feliz”.
Orientações psicológicas
O abuso sexual é complexo. Das dinâmicas abusivas que levam ao abuso até as suas consequências, são aspectos tão diversos quanto determinantes no processo de cada pessoa que é vítima. Revelar, além disso, é um processo que para muitas pessoas leva anos, entre outras razões pelo estigma social e pela solidão e pela pouca compreensão que —na sociedade— se tem a respeito do abuso. Por isso a Fundación para la Confianza dispõe de uma equipe de profissionais que acompanha as vítimas nesse processo de revelação e de início de processos de reparação, para assim —junto com elas— desenhar a forma mais adequada de avançar rumo à cura da pessoa que foi vítima. E nenhum caso é igual a outro.
Wilson
No dia em que Wilson Vial ia dar o seu depoimento para este livro, teve que cancelar.
“Desculpe por não avisar antes, tive um procedimento policial”, avisou. Depois da preocupação inicial, explicou que se tratava de uma situação no seu trabalho, “uma circular número cinco”, como a descreve.
O que é isso? Basicamente, uma intervenção mais direta, pois Wilson é assistente social e trabalha num Escritório de Proteção de Direitos da Infância (Oficina de Protección de Derechos, OPD) no norte do Chile, e um caso que tinha chegado exigia que, presencialmente, ele e a sua equipe fizessem uma denúncia e registrassem as lesões de uma vítima de maus-tratos físicos graves.
“Sim, é duro e pesado. Infelizmente é muito comum, mas bom, alguém tem que fazer isso e estar ali para eles ou elas quando precisarem”, explica Wilson ao falar do seu trabalho e das crianças com quem trabalha.
A sua aproximação à profissão começou muitos anos antes, quando estudou em Arica, motivado, como diz, “pela vontade de ser um agente de mudança na sociedade. Bom, talvez soe arrogante ou algo assim, mas eu realmente pensava isso, porque precisava ajudar a tornar visíveis situações que, quando eu precisei, não eram vistas”.
Situações que, além das que hoje pode testemunhar diariamente no seu trabalho, ele viveu na sua história pessoal.
2018 foi um ano especial para Wilson. Além de marcar a data da sua formatura, foi o ano em que deu o primeiro passo para trabalhar o que lhe tinha acontecido e se decidir a pedir ajuda para conseguir lidar com uma situação de abuso sexual que viveu durante a infância. Tinha 26 anos, e foi a primeira vez que sentiu coragem de fazer alguma coisa a respeito.
Foi assim que, buscando no Google, chegou à Fundación para la Confianza. Chamou-lhe a atenção e escreveu um e-mail. Enviou, responderam-lhe, e sentiu medo: “havia um estigma social tão grande com as vítimas que realmente não consegui continuar, não respondi mais, não deu. Eu sentia pura culpa, culpa de falar e de fazer alguma coisa, então preferi não fazer nada”, lembra.
Um ano mais tarde, o movimento social de outubro de 2019 provocou nele uma reação interna, tão grande que lhe deu coragem de voltar a escrever, mas desta vez para concretizar e iniciar um processo.
“Naquele ano, e por causa da explosão social, quando começaram a vir à tona muitos relatos de abusos, começou também uma mudança nas formas de poder expressar as coisas que se viveram, para que a pessoa, como vítima, possa entender que o que aconteceu não foi culpa dela, e sim de quem o cometeu. Ouvir que não é culpa sua ter sido vítima, e sim culpa da mente do agressor, foi algo que, embora eu soubesse, ouvir me deu uma segurança e um empoderamento que até então eu não tinha”, lembra Wilson, emocionado.
“Então, eu valorizo muito o movimento feminista, que abriu caminho para poder incorporar em si essa coragem e esse escudo para enfrentar essa situação”, explica. Acrescenta que sentir essa segurança o fez voltar a se comunicar com a Fundação.
“Muitas vezes se tenta contar ou se pode contar com uma rede de apoio familiar, mas infelizmente essa rede de apoio familiar se baseia —muitas vezes— nas emoções e nos sentimentos e, embora seja capaz de conter e acolher, fica nisso, e não vai além, não inicia um processo reparatório, ou não oferece uma orientação para ir fechando certos ciclos. Por isso quis me aproximar da Fundação. Queria ajuda, tomei coragem e escrevi para eles”, lembra.
Desse contato “esperava poder, bom, ser um pouquinho mais coerente. Eu trabalho na área das ciências sociais, então estou constantemente fazendo sugestões, ou em constante intervenção com famílias que têm um problema e precisam de alguma intervenção, e sempre, nesse âmbito, tenho que lhes fazer sugestões, então havia esse discurso duplo meu, em que, embora eu sempre recomende aos meus usuários buscar orientação, eu mesmo não estava pondo isso em prática. Acho que esse foi o fator fundamental para conseguir concretizar, ser coerente com o que se prega e pôr em prática”.
Algo que desde o início tinha muito claro é que isso não era, em essência, uma terapia, pois corresponde a uma orientação pontual que, na maioria dos casos, terminava num encaminhamento. Embora saber disso o tenha ajudado a ter uma ideia do que ia acontecer, nunca pensou que tudo seria tão rápido (em menos de duas semanas já teve a primeira sessão) e que —realmente— uma sessão ia significar uma mudança importante nele e na relação que começou a ter com a sua experiência de abuso.
“Desde o início, e apesar de ser um tema bem traumático o que se tem que apresentar ao chegar à Fundação, acho que tiveram um acolhimento que permitiu que eu não me retraísse no meu relato, e isso nunca tinha me acontecido em lugar nenhum. Desde o começo sinto que isso me ajudou a ir fechando certas coisas que eu achava que estavam resolvidas, mas não estavam. Eu precisava exteriorizar essas coisas de alguma forma, então esse acolhimento foi muito bom”, lembra Wilson da primeira conversa que teve com a psicóloga da Fundação.
Nesse dia, além disso, marcaram para ele uma conversa com o advogado da Fundação, porque, embora a sua motivação inicial não fosse começar um processo judicial, ainda tinha dúvidas e não estava seguro da sua decisão.
“Conversei com um advogado especializado no tema, que domina as figuras legais que correspondem aos processos judiciais desse tipo de crime, e que superou todas as minhas expectativas”, lembra Wilson. Conta que, apesar de ter certas noções, as coisas foram se esclarecendo durante a conversa. E assim tomou uma decisão a partir da sua própria convicção: não faria nenhuma denúncia.
“Todas as pessoas que fomos vítimas de um abuso sexual somos diferentes, e cada uma tem que levar os seus processos da forma que fizer mais sentido para ela, e da forma mais saudável possível. A psicóloga me fez perceber que esse processo realmente implicava me expor bastante, e isso mudou muito a minha forma de pensar no que tinha me acontecido e a minha aproximação a esse episódio”, lembra.
“Os meus pais queriam denunciar e iniciar processos judiciais, porque, claro, eu os entendo, tinham um sentimento de vingança muito grande, que obviamente eu também tive em algum momento, mas percebi que a realidade era que eu ia ter que passar por um processo incômodo e desagradável, e eu preferia estar bem”, explica Wilson.
Além disso, por causa do tempo que o seu caso levou, desde que aconteceu até que começou a iniciar processos, acabou prescrito para a justiça chilena. “Por isso também não havia uma forma muito clara de prová-lo, os tribunais são supertendenciosos, e praticamente querem um vídeo da pessoa sendo estuprada para acreditar nela, e eu não queria me expor a que não acreditassem em mim, a ser revitimizado”.
“Talvez, se eu não tivesse tido essa aproximação com a Fundação, teria denunciado, e neste momento estaria superexposto a situações que poderia ter evitado, e por isso agradeço muito ter feito isso”.
Posteriormente, Wilson foi encaminhado a um centro em Iquique e, embora o contato de Wilson com um psicólogo do centro tenha se concretizado, o processo terapêutico ainda não pôde começar, “por problemas econômicos alheios a mim”, como explica Wilson.
Olhando para trás, reflete sobre a importância do processo que viveu na Fundação, que, embora tenha sido breve, “me permitiu uma abertura para o que tinha me acontecido, e me fez perceber ainda mais como era necessário começar um processo reparatório”.
“Agora, de verdade, me sinto superleve em relação ao peso do que a situação significava, superleve, de verdade. Embora eu não tenha começado o processo reparatório, para mim a instância com a Fundação foi superimportante para inclusive —eu me atreveria a dizer— já ir superando a situação. Foi me tirando esse peso, e esses episódios de flashbacks ou coisas assim têm acontecido menos. Já não desmorono como desmoronava antes quando o tema surgia, e isso pôde me dar as ferramentas para gerar essa autoestima que estava diminuída, e que precisava desse impulso para começar a trabalhá-la de maneira adequada”, lembra, com um pouco de emoção.
Todo esse caminho, sem dúvida, também o ajudou para que, no seu trabalho, “eu me motive ainda mais a poder prevenir situações que são bastante preveníveis, e sinto que agora posso pôr em prática o que talvez em algum momento eu quis que acontecesse comigo e nunca aconteceu”.
“Eu —hoje— tento ser o profissional de que em algum momento precisei quando era criança. Tento ser o assistente social por quem eu, quando criança, pedia aos gritos e que nunca apareceu, e com orgulho sinto que estou conseguindo cumprir esse papel”.
Línea Libre
A saúde mental em 2021 continua sendo um tabu no nosso país. Avançou-se muito, e cada vez se fala mais a respeito, mas ainda existe um preconceito contra as pessoas que fazem terapia, e em relação aos problemas que sofrem diariamente as pessoas que estão passando por um momento ruim, ou têm ansiedade, angústia, depressão ou outras doenças de saúde mental. Por isso, a Línea Libre (linha de atendimento da Fundação), um canal de atendimento psicológico gratuito, confidencial e a distância para crianças e adolescentes, tem sido uma alternativa que a Fundación para la Confianza desenhou para chegar a pessoas que, até hoje, não têm a oportunidade de conseguir um atendimento adequado para a sua saúde mental, facilitando o acesso às consultas e às orientações psicológicas.
Diego
O lançamento da Línea Libre foi um período complexo. Diego Riveros, psicólogo e coordenador desse canal, lembra-se muito bem, pois foi algo muito diferente do que esperava. Estava nervoso, conta, pois nunca tinha trabalhado em algo parecido, e por isso não tinha certeza de como ia funcionar, ou se alguém ia ter coragem de entrar em contato, e essa foi uma das suas primeiras surpresas.
Nas primeiras reuniões de ativação da linha, eram um grupo pequeno de profissionais, e o chat que iam começar a usar para entrar em contato com as pessoas ainda não estava ativo. Mas, como mais adiante iam começar a usar o correio eletrônico, habilitaram-no para fazer os primeiros procedimentos de ativação. Lembra perfeitamente que era uma sexta-feira de meados de 2019 e que, enquanto estavam numa capacitação, tiveram que entrar no e-mail para buscar um documento.
“Quando entramos no e-mail, percebemos que —naquela semana— tinham chegado 20 e-mails em três dias, e todos de pessoas em crise, com ideação suicida, de pessoas que nos diziam: ‘vou me matar’. Eram todos com temas muito parecidos. Lembro que estávamos em reunião com quem ia construir uma plataforma para o 1515 (número telefônico gratuito e de alcance nacional), e tivemos que suspender a reunião. Pusemo-nos a responder esses e-mails, numa sexta-feira, era um feriado prolongado, então tivemos que nos organizar para fazer plantão no fim de semana, para que sempre houvesse alguém atento. Não estávamos nem há um mês na Fundação e ainda nem tínhamos divulgado que estávamos atendendo, então para mim era uma amostra do que ia acontecer, uma evidência da necessidade de que existissem esses espaços, e de que as pessoas precisavam pedir ajuda”, lembra Diego.
Depois desses dias iniciais, a Línea Libre tem sido como uma bola de neve.
A necessidade era tanta que, até hoje, os números de atendimentos só aumentaram. Passaram-se algumas semanas do episódio dos e-mails, e os canais de comunicação já estavam operando, ainda não com o número 1515, mas sim com o aplicativo Línea Libre e o correio eletrônico. De qualquer forma, começar um trabalho como esse foi todo um desafio.
“Lembro das primeiras conversas, e do medo que eu tinha. Mas aí é importante conhecer o modelo de intervenção, sabê-lo bem, o enquadre que temos, porque há erros e erros. Por exemplo, refiro-me aos erros de quando fiz uma pergunta que não servia, ou conduzi a conversa, ou falei demais, e é preciso simplesmente se lançar a escrever, deixar que a conversa flua”.
“Com o 1515 recebemos a primeira chamada durante a explosão social, porque em outubro foi habilitado o número curto, e a nossa primeira conversa foi quando estávamos no pico da crise, na semana depois do dia 18. Também tivemos que apressar um pouco esse lançamento, porque sentíamos que tínhamos que dar apoio naquele momento”. Só naquela manhã, a primeira com o número ativo, receberam mais de 20 ligações.
- 20e-mails em três dias, todos de pessoas em crise, antes de anunciar que a linha atendia
- Outubro de 2019é habilitado o número curto 1515; a primeira chamada chega na semana depois do dia 18
- + 20ligações na primeira manhã com o 1515 ativo
- Centenasde pessoas encontram diariamente na Línea Libre um espaço seguro, mais de um ano depois da sua criação
Mais de um ano depois da sua criação, o ritmo não parou e, desde que aqueles primeiros e-mails foram respondidos, Diego e a equipe de psicólogos e psicólogas respondem, escutam e escrevem a centenas de pessoas que, diariamente, encontram na Línea Libre um espaço seguro.
E do muito que aprenderam, acompanharam e trabalharam na linha, há uma coisa que compensa o esforço, e é uma frase que se ouve com frequência ao fim das conversas: ‘Obrigado por me escutar’, é muitas vezes com isso que terminam os nossos atendimentos, e para nós significa muito, porque são os efeitos de um atendimento psicológico de qualidade, e a representação de uma enorme necessidade de ter apoio, em situações em que as pessoas não encontraram a possibilidade de ser escutadas, e em que aparecem situações de violação de direitos ou conflitos que não encontraram outra forma de desabafo”.
Os relatos são variados, mas muitos nos falam de sofrimento, de sensação de solidão e de desesperança. Mas em outros casos, como explica Diego, “o contato é direto e abrupto, como se deixassem sair uma mensagem que tinham guardada havia muito tempo e não tinham encontrado o espaço para dizê-la. E em certas chamadas é o silêncio que ocupa um lugar preponderante, tornando-se um pano de fundo para o que estamos prestes a escutar: Não aguento mais”.
“As palavras parecem se transformar em alarmes, sinais de alerta que ativam um ruído forte que pode nos impedir de escutar o que é verdadeiramente importante. Sentimo-nos tentados a agir da maneira mais rápida possível e ir em socorro de quem está nos ligando, pois devemos intervir para resguardar e proteger diante de situações de risco”.
Por isso, uma das dificuldades do trabalho numa linha de frente de ajuda psicológica é manter a calma e tentar gerar as condições necessárias para que a conversa se transforme num espaço de intimidade. Por esse motivo, Diego tem certeza de que “a certeza do nosso trabalho repousa na busca de intervenções respeitosas, que consideram a opinião de quem procura atendimento, e nas quais, na maioria das vezes, agir com prudência, respeitando os ritmos da outra pessoa, gera um ambiente protetor”.
Com essa experiência, percebeu que criar espaços em que crianças e jovens se sintam à vontade, falando com tranquilidade do que sentem, é possível, e muito eficaz. E o que é preciso para produzir esse encontro? Tempo. “Para escutar outras pessoas precisamos de tempo. Para pensar em conjunto e dar importância ao que nos estão dizendo, é fundamental perceber o outro na sua especificidade, nas suas maneiras singulares de manifestar e desenvolver produções discursivas que nos falam do seu percurso histórico”.
Para escutar outras pessoas precisamos de tempo.
“No início do meu trabalho na Línea Libre e numa das minhas primeiras capacitações, comentamos que um dos desafios do atendimento não presencial se refere à premissa de que cada contato é único, uma vez que nunca saberemos se teremos a oportunidade de uma nova conversa. No entanto, na medida em que somos capazes de manter uma disposição de trabalho com as características descritas até aqui, conseguimos atenuar essa premissa e obter a possibilidade de um novo encontro para acionar os protocolos e/ou encaminhamentos pertinentes”.
“Obrigado por me escutar”, portanto, representa tudo isso, porque é nesse dizer que as pessoas que entram em contato com a linha podem apropriar-se de um relato que lhes pertence. “A sua história e a sua memória fazem parte inescapável desse discurso, em que se cruza o encontro com alguém que está do outro lado disposto a escutar”.
E, finalmente, é isso que dá sentido, corpo e consistência ao trabalho que se realiza diariamente na Línea Libre.
“Para escutar e pensar o sofrimento humano, é necessário elaborar um trabalho caracterizado pela convicção de buscar novas possibilidades para cada pessoa que liga, e encontrar diferentes sentidos nas suas palavras. A partir desse momento é que poderemos alcançar o impacto subjetivo do nosso encontro, em que ‘Obrigado por nos escutar’ adquire a força do seu significado”.
Sobre esta edição. Versão web do livro 10 anos por um mundo sem abuso, publicado em espanhol, em PDF, pela Fundación para la Confianza em 2021 (primeira edição impressa de 500 exemplares, Ograma Impresores; ISBN 978-956-402-822-4). Diretor: José Andrés Murillo. Coordenação geral: Nicole Del Río. Pesquisa e redação: Benjamín Gálvez. Direção de arte e design: Cristhian Sotomayor. Ilustrações: Jesu Villa e Cristhian Sotomayor. Edição: Natalie Sève. Nesta versão foram corrigidas erratas e acrescentados gráficos que resumem o conteúdo; as ilustrações das pessoas que dão depoimento não são reproduzidas. Os números, cargos e referências legais correspondem à data do livro. Baixar o PDF original (em espanhol)
Tradução da Fundación Para la Confianza. Em caso de divergência, prevalece a versão em espanhol. Versão em espanhol.
